A TRIBUNA ONLINE
Domingo, 10 de Junho de 2007, 08:49
Projeto preserva a cultura caiçara
Da Redação
# Eco Anterior # Próximo Eco
Após registrar, ao longo de 2005, todas as festas caiçaras que acontecem na região da Estação Ecológica Juréia-Itatins, em DVD, CD e textos, pelo projeto Viola Peregrina, a Organização Não-Governamental Mongue Proteção ao Sistema Costeiro (Mongue) deu início, este mês, ao segundo grande projeto no setor, intitulado Olhar Caiçara.
Assim como o Viola Peregrina, a nova proposta de resgate da cultura das populações tradicionais do Litoral Paulista conta com apoio financeiro da Petrobras, por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura. Entretanto, desta vez, os próprios integrantes das comunidades serão os produtores.
Com o patrocínio ao longo de 12 meses, algumas das comunidades litorâneas existentes de Parati, no Rio de Janeiro, até Paranaguá, no Paraná, farão um intercâmbio para registro audiovisual mútuo de suas tradições. ‘‘A partir do próprio ponto de vista, eles conhecem e passam a preservar melhor suas tradições’’, explicou o secretário-executivo da ONG, Plínio Melo.
A primeira filmagem aconteceu no último dia 3, em Cananéia, quando um morador de Ubatuba, Litoral Norte de São Paulo, conheceu a Domingueira de Fandango, uma festa em praça pública. Outras ações estão programadas para o dia 29 deste mês, em Ubatuba, na Festa de São Pedro, e em 4 de agosto, em uma comunidade isolada de Ilhabela denominada Serraria.
‘‘O projeto é uma consequência do sucesso da ação anterior da Mongue, o Viola Peregrina, que teve como condutor a chamada viola iguapeana, também conhecida como viola branca, que existe apenas nesta região de Iguape, no Litoral Sul paulista’’, recordou Melo. Ele lembrou que uma viola foi produzida por luthiers locais e peregrinou por várias comunidades da Juréia. ‘‘Registramos músicas, danças e festas religiosas de caiçaras’’.
Mudança
Melo ressaltou que, nos últimos anos, moradores das comunidades tradicionais se transferiram para a cidade por causa das restrições ambientais. ‘‘Com isso, perderam os vínculos com a tradição caiçara, caracterizada pela transmissão oral dos conhecimentos’’. Além de registrar manifestações culturais na forma de vídeo em DVD, programas de rádio em CD, textos em site e blog, o Viola Peregrina gerou renda para mais de 200 pessoas em sua fase inicial.
Se o Olhar Caiçara também for bem-sucedido, a Mongue pretende executar a terceira etapa do projeto. ‘‘Vamos buscar financiamento para construir um bairro temático reproduzindo um vilarejo caiçara com escola, uma cooperativa de cantadores e luthiers, uma casa para produção de doce, um restaurante caiçara, um local para produção artesanal de farinha onde os envolvidos poderão utilizar os equipamentos de marcenaria, adquiridos para produzir e obter renda com a venda de seus trabalhos e artesanatos’’.
Saiba mais
Guiado pelo som de rabecas e violas de caixeta, o fandango é uma das tradições mais marcantes dos caiçaras, por se tratar de uma festa que nasceu da ajuda mútua nas atividades agrícolas. Além do cooperativismo, este povo, formado a partir da miscigenação de índios nômades com homens de sambaqui e, depois, com negros, possui uma cultura que se baseia no respeito pela Mata Atlântica, o que pode ser observado pela ausência de cercas e grandes desmatamentos nas propriedades mais antigas e isoladas. Dados extra-oficiais apontam que, até a década de 1980, cerca de 350 famílias habitavam os 80 mil hectares da Estação Ecológica Juréia-Itatins. Mas este número caiu muito ao longo dos anos, devido às restrições impostas pela legislação ambiental. Atualmente, as famílias restantes, que lutam para sobreviver e manter suas tradições, têm a seu favor uma mudança na composição da unidade de conservação, que permitiu o desenvolvimento sustentável.
# Eco Anterior # Próximo Eco