Festas
4. Uma Vila de Caiçaras em Ilhabela -
4/5 de Agosto de 2007
Serraria é uma vila de pescadores do município de Ilhabela, litoral norte do Estado de São Paulo, habitada por autênticos caiçaras.
Localizada a leste da ilha, lado oposto à balsa que liga Ilhabela a São Sebastião (veja o mapa), 21 casas formam a Vila. A praia tem 100 metros de extensão e o espaço onde estão erguidas as habitações, entre a areia e o morro, não vai além de 60 metros. O quintal de uma das últimas casas, inclusive, faz divisa com uma das tantas cachoeiras da ilha.
O nome, Serraria, deve-se ao fato de que, durante um período, que ninguém sabe precisar, no local havia, como dizem os nativos, uma Oficina que cortava as toras de madeira buscadas no interior da ilha e puxadas por burros. Dali, a madeira era beneficiada e transportadas nos barcos até o continente. Nada restou desse tempo, a não ser uma pedra com dois talhos na parte de cima, que possivelmente serviam de apoio a algum equipamento da Oficina.
O personagem central na história das pessoas que habitam Serraria é o VÔ. Nunca citam o nome, mas todos se referem a alguém que teria sido o segundo morador da futura Vila. Seu filho mais velho, de 59 anos, ali nasceu e jamais deixou Serraria – o que nos leva a supor que aquele espaço é ocupado por esses caiçaras há cerca de nada menos que 80 anos. Exceto as crianças e os adolescentes com até 14 ou 15 anos, todos, quando falam do VÔ, não deixam de reclamar sua falta, especialmente Dona Verônica, a avó, que diz com todas as letras que a morte do marido foi o que de mais triste lhe aconteceu na vida.
Os caiçaras de Serraria, como tantos outros grupos no Brasil, são chamados por muitos de comunidade isolada, não obstante o esforço de outros ao nomeá-los de comunidade tradicional. Há, sem dúvida, uma diferença conceitual importante nos modos diferentes de referência a esse tipo de homem brasileiro que se constituiu na história do nosso país desde o primeiro momento da colonização. Considerá-los como um dos povos tradicionais significa reconhecê-los e respeitá-los – e não simplesmente esperar que desapareçam, como sugere a designação comunidade isolada.
Pra quem vive nos grandes centros urbanos, onde a produção e o consumo das mais diversas quinquilharias andam lado a lado, a vida dos caiçaras de Serraria pode ser considerada como muito simples. Contentam-se com pouco, poderíamos dizer. Vocabulário, moradia, mobiliário, vestimentas... tudo muito humilde. Assim como a maioria de nós, o povo brasileiro, os caiçaras não deixam de reclamar falta de dinheiro, de atendimento à saúde, dos demais serviços públicos... Diferentemente da maioria de nós, ninguém passa fome em Serraria, apesar da pesca, dia após dia, se tornar uma atividade cada vez mais difícil.
Também diferente de outras comunidades caiçaras do litoral paulista, a de Serraria é herdeira da mais antiga tradição religiosa. Não sendo proibidos – como é o caso em outras localidades que têm a presença das igrejas evangélicas – seus cantos e suas rezas são dirigidos aos santos da igreja católica, principalmente ao Bom Jesus de Iguape que, há muitos anos, é venerado pelos habitantes locais.
A festa começa com missa no período da manhã, seguida do almoço preparado pelas mulheres aos visitantes. No começo da noite, todos se dirigem novamente à capela para as rezas ao Bom Jesus. Terminadas as orações inteiramente cantadas, a responsável pela prática religiosa dirige-se à porta da capela com uma vela acesa e, do lado de fora, em silêncio, todos ouvem a lista de nomes dos que deverão preparar a festa do próximo ano.
É chegada, então, a hora de acender a enorme fogueira, cujos troncos queimarão por horas e até dias depois; de assistir à queima de fogos de artifício, invariavelmente aplaudidas no final; de, enfim, dar início ao ansiosamente esperado baile, que reúne moradores e visitantes, e que se estenderá por toda a noite até o amanhecer do dia seguinte.
São essas apenas algumas características da tradicional Festa de Bom Jesus de Iguape de Serraria, Vila dos Pescadores do município de Ilhabela, distante cerca de 200 quilômetros de São Paulo, capital do Estado. Perguntados se pretendem algum dia se mudarem dali, a resposta tanto das crianças, dos adolescentes, dos adultos e dos mais velhos é sempre NÃO. Dizem que são felizes e que não precisam de mais nada do que eles têm ali para viver.
As fotos estão dividas em álbuns. Selecione abaixo o álbum que deseja visualizar.
# a Festa do Bom Jesus (26 fotos)
# a Pedra do Sino, na Vila de Ilhabela (13 fotos)
# a Vila dos Pescadores (90 fotos)
# da Vila de Ilhabela para Serraria (17 fotos)
# fotos tiradas por adolescentes da Vila (12 fotos)
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