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O projeto Viola Peregrina se propôs a registrar as manifestações do lazer festivo da Juréia respeitando os contextos em que são significativas. Na cultura popular a festa traduz a concepção cíclica da existência e não é um acontecimento gratuito: ligada à vida cotidiana, ela tem lugar nas práticas religiosas, no mutirão de trabalho, nas festas profanas, nos encontros de vizinhos - este é o material vivo de que se alimenta a música e a dança presentes nesses encontros. Assim, o roteiro das gravações do projeto obedece ao calendário festivo das comunidades da Juréia e a estréia da Viola Peregrina se deu durante o os bailes de carnaval na casa de Plínio Lima Alves e Dona Maria, na Praia do Una.
A chuva que caiu durante os quase 20 dias que antecederam ao carnaval impediu a ida de muitos moradores, pois as péssimas condições da estrada que liga Peruíbe à Barra do Una interromperam o tráfego do ônibus.
A equipe do Viola Peregrina - depois de ajudar a desatolar os muitos carros que impediam o trânsito na estrada do Una - transportou o equipamento na travessia do Rio Una no barco a remo. E para melhor aproveitar os primeiros raios de sol após tanta chuva seguiu viagem a pé até o alojamento no Grajaúna.
Apesar das dificuldades, a logística foi perfeita, principalmente a decisão de encaminhar o Ciro e a Nerci na primeira viagem: o resultado foi um belíssimo feijão com arroz com carne defumada.
No domingo a equipe 'amassou barro' por uma hora para entrevistar Seu Francisquinho e D. Maria Lúcia, eméritos dançarinos do Passadinho na comunidade da Cachoeira do Guilherme, mas que não costumam freqüentar o 'baile bailado', que é aquele em que os pares dançam juntos. Os mais velhos das comunidades da Juréia nos dão conta de que antigamente eram muitos os tipos de dança: Catira, Batido, Faxineira, Tirana Grande, Recortado, Jacaré, Pica-pau, Sirindi, mas a coreografia e o ritmo perderam-se no tempo.
As gravações começaram no baile [1] do domingo que, assim como o de segunda, foi até o dia amanhecer. Durante esses dias a Daniela (Dadá) iniciou a gravação do Olhar Caiçara: a idéia é que as pessoas da comunidade também registrem com uma câmera o que está acontecendo e que esse 'olhar' seja incorporado ao vídeo final do Viola Peregrina.
Na terça-feira, foi realizado o Baile do Toco: obedecendo à tradição que recomenda o respeito à Quaresma, a dança acabou à meia-noite. Nesta hora, Dona Maria, a dona da casa, lançou no teto uma massa de farinha e cinza do fogão - é a maneira de se 'refazer' a imposição das cinzas, que desde o século VII simboliza o início de um período de penitência de 40 dias para as religiões cristãs.
Nesse momento estava dado o sinal para que o baile parasse e as violas fossem desafinadas e colocadas com a boca virada para a parede, de onde serão retiradas e afinadas novamente somente no baile de Aleluia. A próxima gravação do Viola Peregrina está marcada, portanto, para essa data, novamente na casa de 'seu' Plínio Lima Alves.
[todas as fotos]
[1] baile
Músicos:
Viola: Ciro, Cleiton e Darci; pandeiro: Leopoldo e Admir (Cachorrinho); cavaquinho: Leopoldo.

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