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A intensa atividade do projeto Viola Peregrina durante a festa do Bom Jesus de Iguape nos deixa convictos de que estamos indo além dos objetivos iniciais do projeto. O registro das manifestações culturais dos caiçaras do litoral sul de SP é também motivo para reunião de novos e antigos violeiros, cantadores e companheiros. É a viola pontuando a tradição oral.
As modas de viola compostas e cantadas nas festas caiçaras mantêm as características da antiga música caipira e, assim como ela, assumem o "papel de elemento mediador das relações sociais, no sentido de evitar a desagregação" [1]. A música elabora e reelabora a cultura de seu público, reforçando a identidade do grupo - a cultura e a tradição seguem adiante por meio dessa transmissão da escuta.
Os cantadores têm a função de comunicar os fatos da realidade do ouvinte de maneira organizada, externando seu universo por meio de uma estética reconhecida por seu público. O narrador, ao contar uma história acontecida, torna-se o rapsodo grego - aquele que é o portador da tradição oral, da memória coletiva [2].
Nesse sentido, a Peregrina presenciou e proporcionou em Iguape muitos momentos de encontro desses rapsodos caiçaras. A viagem, inicialmente prevista para que fosse gravada apenas a Romaria e o Baile no Sandália de Prata, foi se desdobrando e acumulando várias atividades e ‘causos’, que relatamos a seguir.
Romeu e Peregrina – um amor possível
Seguindo a proposta do Projeto de mostrar aos interessados o material que está sendo gravado, aceitamos o convite para exibir os vídeos no “Bar do Romeu”. Mais que um convite, foi uma ordem dada pela comunidade caiçara que vivia na área da Estação Ecológica e hoje vive na cidade de Iguape. Obedecemos de bom grado à ordem e, depois da mostra de vídeo, atendemos ainda a uma segunda: todos queriam ouvir a Viola Peregrina. Pronto! Começou mais um baile. Ali mesmo, no chão de terra.
O telão do Viola Peregrina, montado no Bar do Romeu.

Raul do Prado - um rapsodo
No Bailão do Romeu encontramos Raul do Prado, um dos poucos compositores que ainda escrevem a história caiçara em versos. Fomos até sua casa para gravar um depoimento para o documentário e, às 10 da manhã já estava formada uma roda de viola e a Peregrina foi devidamente apresentada ao Raul.

Aipi, aipim, aimpim e Amado
Candinga, castelinha, macamba, macaxeira, macaxera, mandioca-brava, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniva, maniveira, moogo, mucamba, pão-da-américa, pão-de-pobre, pau-de-farinha, pau-farinha, tapioca, uaipi, xagala – assim nos ensina o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa todos os nomes da mandioca no Brasil.
Um exemplo brasileiro de agrobiodiversidade, a mandioca é cultivada no país todo e tem muitos usos e maneiras de ser preparada: diversos tipos de farinha, mingaus, beijus, frita, cozida, acompanhando carnes, e até bebidas fermentadas – os cachiris.
Na cultura caiçara, a mandioca é o ‘pão’. E a farinha de mandioca, ainda hoje tão presente, era feita em um momento de partilha desse saber: um dos momentos em que o plantar, o colher e o manufaturar faziam parte da atividade agregadora dos vizinhos.
A casa de farinha chamava casa de tráfico, onde tinha o forno, esse forno de cobre, grande, os cochos. A gente falava: "Olha, Ciro, vamos cobrir a casa de tráfico, lá". (risos) Você tá gravando isso, tá tudo mundo enrolado. É por isso que eu tô explicando, já, porque naquele tempo, sei lá, acho que índio que inventou essas coisas, né? Aí, arrancava um pouco de mandioca, hoje, fazia sua farinha, amanhã era o João, depois de amanhã era eu, e ia a semana inteira [3].
A equipe do Viola Peregrina registrou como é produzida, artesanalmente, a farinha de mandioca pelos caiçaras do litoral sul de SP. “Seu” Amado e sua esposa Nhá Cecília, o genro Manuel e a filha Palmira mostraram a arte de ralar, prensar e torrar a farinha.
Nerci, a responsável pela alimentação de nossa equipe (que desta vez nos acompanhou apenas para ver as gravações, pois as refeições seriam feitas em restaurantes), não se conteve e ajudou a “fornear” a farinha.

Na casa de Amado Raimundo - antigo morador do Rio Comprido na Cachoeira do Guilherme e agora morador das margens do rio Ribeira do Iguape, no Bairro do Embu - passamos horas de prosas, causos e recordações dos tempos vividos na região do Rio Comprido.
“Seu” Amado nos levou até a beira do rio e mostrou, ao longe, o Maciço da Juréia - “É lá que a gente vivia. Quando eu fico triste, venho até aqui para matar a saudade”.
Na casa de Amado Raimundo - antigo morador do Rio Comprido na Cachoeira do Guilherme e agora morador das margens do rio Ribeira do Iguape, no Bairro do Embu - passamos horas de prosas, causos e recordações dos tempos vividos na região do Rio Comprido.
“Seu” Amado nos levou até a beira do rio e mostrou, ao longe, o Maciço da Juréia - “É lá que a gente vivia. Quando eu fico triste, venho até aqui para matar a saudade”.

A Peregrina arrasta a Sandália de Prata
“Nunca vi tanta gente neste salão”. Esta foi a frase mais ouvida no Sandália de Prata, clube caiçara da cidade de Iguape, comandado por D. Maria das Neves. O Viola Peregrina ficou feliz em reunir novamente os moradores das comunidades anteriormente visitadas - Barra do Una e Praia do Una.
Plínio Lima Alves e D. Maria, anfitriões da primeira gravação do projeto no Carnaval na Praia do Una, dançam com a Peregrina no Sandália de Prata.

Foi bom, também, reencontrar o Wellington, que tocou pandeiro no baile da Cachoeira do Guilherme. Quem ouve o fandango sabe que uma boa viola vem acompanhada de um bom pandeiro e que são os novos músicos que vão garantir a presença dessa manifestação cultural da região.

O baile não ‘amanheceu’, como é a tradição caiçara, porque a urbanidade exige outras leis e a Lei do Silêncio foi respeitada, embora prorrogada: fomos apenas até as 5 e meia da manhã.A música parou somente quando D. Maria, com medo de receber autuação, conseguiu tirar o último violão da mão do Esquerdinha.

O Padre e a Viola
O roteiro do Projeto Viola Peregrina previa a gravação da Romaria em louvor ao Senhor Bom Jesus do Iguape para apenas a gravação da missa na Praia do Una. Imaginávamos gravar a missa e acompanhar os cânticos ao som da viola, principalmente o Hino dos Romeiros (acompanhe o canto e letra na integra).
O que não prevíamos é que esta seria a última romaria feita pelo Padre Webber. O que não sabíamos é que Pe. Arinildo, seu substituto, é um emérito violeiro. Bastou que explicássemos ao Pe. Arinildo os objetivos do Projeto para que nosso grupo ganhasse a adesão de um grande fandangueiro.
Pe. Arinildo cantou durante a missa realizada na Praia do Una, elogiou o Projeto na Missa celebrada na Igreja Matriz de Iguape e, para nossa surpresa, apareceu e dançou no Baile realizado no Sandália de Prata. No domingo, pela manhã, lá estava o Padre, sentando à beira da Matriz, relembrando com o Cleiton - artesão que fabricou a Peregrina - mais músicas e causos caiçaras.

[1] Waldenyr Caldas, Acorde na aurora, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1979, p. 80.
[2] Romildo Sant'Anna, A moda é viola: ensaio do cantar caipira, São Paulo, Ed. Arte & Ciência, 2000.
[3] Anicleto Silva, em depoimento para Teresa Melo. A Floresta, a Mesa e as Leis. Dissertação de mestrado, ECA/USP, 2000.
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