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Capítulo 1
ERA UMA VEZ...
Capítulo da dissertação de mestrado 'A FLoresta, a Mesa e as Leis'.
Teresa Melo

A história da Comunidade do Guilherme está aqui escrita (e transcrita) por meio da edição de trechos dos depoimentos de 13 pessoas, integrantes, ex-integrantes e vizinhos da comunidade. Estão presentes as vozes de Alice Tavares, Amado Raimundo, Arcelino Lopes, Carlos Raimundo, Cesenando Neves, Ciro Martins, Irácio da Silva Tavares, Lélia Schmidt de Almeida, Miguel Martins, Anicleto Silva, Orlando Tavares Martins, Paula Tavares Martins e Pradel Martins. Foram aqui incorporados depoimentos obtidos pelos profs. Maria Luiza Schmidt e Miguel Mahfoud, aos quais acrescentamos as letras "SM" ao lado do nome do narrador.

É importante esclarecer que, embora os textos tenham passado por uma “peneira grossa” em relação à gramática, optamos por não submetê-los a uma “peneira fina”. Esta escolha deve-se à convicção de que, se desconfigurarmos excessivamente a fala de nossos narradores, não estaremos na realidade ouvindo suas vozes. É, portanto, por uma questão de respeito e legitimidade que tentamos preservar um pouco o modo de falar das pessoas entrevistadas.

Os depoimentos traduzem visões peculiares a cada um de nossos interlocutores, segundo sua experiência junto à Irmandade e ao espaço do Guilherme, até o ano 2000. O Quadro 1 esclarece a idade de cada pessoa e o local de moradia, na época em que foi registrada sua fala. O mapa da Estação Ecológica Juréia-Itatins ajuda na identificação dos espaços.

Quadro 1 - NARRADORES

Alice de Oliveira Tavares, 84

Cachoeira do Guilherme

Amado Raimundo, 73

Cachoeira do Guilherme

Anicleto Silva, 60

Guraraú

Arcelino Lopes, 73

Guaraú

Carlos Raimundo, 60*

Carvalho (EEJI)

Cesenando Neves, 70*

Praia de Una (EEJI)

Ciro Xavier Martins, 41

Cachoeira do Guilherme (SM) e Guaraú

Irácio da Silva Tavares, 56

Pariquera-açu

Lélia Schmidt de Almeida, 57

Peruíbe

Miguel Xavier Martins, 43

Guaraú

Orlando Tavares Martins, 40

Cachoeira do Guilherme

Paula Tavares Martins, 60

Cachoeira do Guilherme

Pradel Xavier Martins, 63

Cachoeira do Guilherme

* Idade aproximada

Todas as ervas são feiticeiras ou todos los santos son yerberos [1]

O Joaquim da Silva Tavares, que é o pai de Henrique Tavares, era praticamente dono de Iguape. Ele tinha ouro, o velho tinha muito ouro. (Ciro Martins) O Joaquim, ele era dono de escravo, tinha negro, daqueles cativo. Tinha brasileiro cativo, que trabalhava pra ele. Só que ele não judiava dos negros. O Joaquim sabia fazer tudo. Fazia homeopatia, com planta, ele sabia das coisas, tinha balança, ele pesava. Tinha duas balancinhas, parece dois botõezinhos, na conta certa de pesar. Andava com a balancinha, tão bonitinha que era. Era duas conchinha. (Alice Tavares).

Henrique Romeu da Silva Tavares, filho de Joaquim, espírita e homeopata, estabeleceu-se em Pariquera-Mirim (cidade próxima a Iguape - Vale do Ribeira - SP), onde reuniu em torno de si inúmeros adeptos de sua doutrina, que também se traduzia na cura dos males do corpo.

O velho Henrique Tavares começou a trabalhar com esse povo lá em Pariquera. Ele estudou vinte anos, foi estudando, depois foi juntando o povo e foi fazendo curativo e depois foi fazendo esse trabalho dele e foi juntando gente. Juntou bastante gente, porque esse povo era bastante, mesmo. Aí, ele ficou lutando lá, lutando, lutando, lutando... Formou os discípulos quase igual com ele . (Carlos Raimundo)

Podemos ter uma idéia de sua influência na região pelo registro dos Autos de Habeas Corpus [2] - quando de sua prisão por exercício ilegal da medicina [3], em 1930 - na decisão do delegado que aconselhava que o réu "seja afastado do local das operações, onde seu poder de suggestão é manifestamente extraordinario, ao ponto de haver já embaraçado as pesquisas policiaes emprehendidas por esta Delegacia, visto que o proprio inspector de Pariquera Mirim, onde reside o paciente, lhe presta mais obediencia do que a esta Delegacia".

Com um copo de água ele curava. Alguém vinha aflito "é, seu Henrique, a minha mulher tá pra ganhar neném e não consegue, tal". Ele dizia: "Pode voltar, que já ganhou. É um menino, já ganhou, pode voltar tranqüilo." Então, isso tudo foi dando aquela fé, foi criando corpo, o povo começou a acreditar bastante a ponto que até pra fazer uma roça, pediam pra que ele marcasse o dia. Eles levavam a coisa muito ao pé da letra, muito com seriedade, eles queriam ter o grupo Tavarano. E as pessoas eram conhecidas pelo traje. (Irácio Tavares)

Aí, nós começamos a seguir ele, depois viemos lá de onde a gente morava, viemos cá no Pariquera-Mirim, tinha reza. Aí ficamos, nunca mais saímos, papai gostava muito dele. E tudo que a gente queria fazer ele ia falar pra ele e tudo que ele falava dava certo. (Alice Tavares)

Até que foram lá um dia dois policiais e um investigador, se não me engano. O cara veio: " olha, eu vim aqui pro senhor curar, que eu estou com dor de dente". O velho Tavares tava roçando um caminho, que na época existia assim, tinha o quarteirão, que juntava o pessoal pra limpar uma trilha, o quarteirão era como se fosse um prefeito daquele bairro. Juntava o pessoal pra limpar uma trilha, ou pra roçar, qualquer coisa. Aí, foram, coitado do velho, benzeu o dente, na hora que ele tava benzendo os dois polícias chegaram lá: "tá preso". "O que foi que eu fiz?" "Tá preso." (Ciro Martins)

A perseguição a curandeiros populares como Henrique Tavares - ainda hoje comum em nosso país - havia recrudescido há 400 anos, e fazia parte das estratégias adotadas pela Reforma para abafar a cultura popular, conforme nos conta Peter Burke [4].

A velha rivalidade entre o médico formado na universidade e o curandeiro não oficial parece ter adquirido um conteúdo mais intelectual na época da revolução científica, como podem sugerir alguns exemplos. Em 1603, um médico italiano, Scipione Mercurio, publicou um livro sobre os "erros populares" no campo da medicina, traçando uma aguda distinção entre as pessoas educadas, que patrocinam verdadeiros médicos como ele e as "pessoas comuns [...] que correm para a piazza [...] para ouvir o conselho de charlatães, montimbancchi e 'praticantes do mal popularmente conhecidas como feiticeiras" .

Liberado em 13 de junho do mesmo ano, Henrique Tavares conclamou seus seguidores - conhecidos como Tavaranos - para dirigirem-se às terras à margem do Rio Comprido, onde estabeleceriam sua comunidade. O líder, entretanto, já doente, faleceu antes que todos se estabelecessem no local que havia escolhido. Passaram a "assumir os trabalhos" dois de seus discípulos, além do sucessor natural do fundador, seu filho Sátiro Tavares, então com 16 anos e que havia herdado os dons curativos do pai.

Escolhendo nova morada no Rio Comprido

A irmandade que a gente era, assim, de respeito à lei, então, o que mandava em nós veio passear pra cá, arrumou esse lugar, que lá também já tava ficando muito apertado, muito. Então, ele veio de lá pra cá, de Iguape a cá, e aqui arrumou pra ele. Só que ele não venceu morar aqui porque ele morreu. Então, nós todos resolvemos vir, porque ele saiu, que nos dava remédio, que era um homem de bom conselho, fazia tudo por nós. E depois que chegamos aqui, acostumamos aqui. Aí, já ninguém mais quis sair. (Alice Tavares)

Eu me lembro que meu pai falava que tinha um que tava com toda a familiada, quando mudaram aqui pro Rio Comprido. Eles saíram de Pariquera no remo, hein, no remo, nada de motor, nem sabia que existia motor. Eles faziam aquele canoão grande, com um metro de boca de largura por 10, 11 metros de comprido. Pegava 10, 15, 20 pessoas. Aí, punha arroz, matava um porco, fazia farofa, era a mesma coisa que a gente ir daqui pro estrangeiro. Homem, mulher, filho, criança, todo mundo naquela canoa. Pega no remo e vem embora, bateu aqui no Rio Comprido. Cinco, seis dias de remar. (Anicleto Silva)

Subindo o rio, lá na frente, antes do porto do Prelado, tem um canal que liga o Rio Comprido com o Rio das Pedras. Então, eles passavam com dificuldade, pro meio do capim, empurrando a canoa, atravessava, de lá pegava o remo e ia embora. Chegavam lá e faziam 10, 11 sacas de farinha e traziam. Porque a matéria prima tava pra lá, que era a mandioca. Eles deixaram muita roça de mandioca lá. Eles, então, pra aproveitar a lavoura, iam fazer farinha lá . (Irácio Tavares)

No começo foi difícil. Nós chegamos, não tinha nada plantado, não tinha nada de nada, nada. Pegamos a bruta. Começamos trabalhar porque tinha jeito de trabalhar. ( Alice Tavares) Aí, começou a progredir o lugar. Da Cachoeira do Guilherme até o Capoava, era cheio de morador. Eu estou contando pra você, eu não sei se você vai imaginar isso, não sei nem como, mas nós, que já andamos lá e conhecemos, não dá nem pra acreditar. (Ciro Martins )

A socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz [5], em estudo realizado sobre os movimentos messiânicos, nos dá conta do grande número de comunidades que foram fundadas sobre essas bases em nosso país. Além das mais conhecidas, como a de Antonio Conselheiro ou do Padre Cícero, inúmeros outros povoados foram erguidos ao redor de um líder carismático.

Silvestre José dos Santos - o Profeta - construiu em Pernambuco, por volta de 1817, A Cidade do Paraíso Terrestre; vinte anos depois, ainda em Pernambuco, surgia o Reino Encantado, tendo como rei João Ferreira, mameluco que conseguiu reunir em torno de si perto de 300 pessoas. Mas não é apenas o nordeste o palco dessas concentrações: no Rio Grande do Sul, em 1872, em condições geográficas e sociais bastante diferentes das do nordeste, João Jorge e Jacobina Maurer reuniram aproximadamente 34 famílias, na sua maioria de colonos alemães. Ainda ao sul, em Santa Catarina, entre 1910 e 1914, um grupo de devotos, autodenominados "monges", dos quais destacaram-se João Maria e José Maria, lançaram seus adeptos em uma luta sangrenta contra as tropas do governo, que ficou conhecida como Guerra Santa.

Na esteira dos movimentos acima citados e em torno das lendas que passaram a se divulgar a respeito, estouraram, neste século, por todo o Brasil, muitos outros. O Beato do Caldeirão, o Velho Pedro, o Português Faria, João do Vale, o Bispo, Benedito de Almeida Morais, o Monge Jesus de Nazareth, João Cícero, Beato Chico, Pratinha da Fumaça, José Bruno de Morais, entre outros, reuniram seus prosélitos e estabeleceram comunidades em torno de si.

Os movimentos messiânicos brasileiros, segundo a autora citada, foram motivados pela falta de padres no interior do país e pelas influências que a religião oficial sofreu das diversas etnias que nos conformaram. Desenvolveram-se dentro da cultura rústica - e, portanto, no meio rural, que ressentia-se mais profundamente da anomia estabelecida pela perda de valores tradicionais, os quais foram substituídos por novos valores - e apresentavam características como:

•  eram compostos por indivíduos marginalizados da organização social, que buscavam nessa reunião a possibilidade de uma vida melhor, adotando uma filosofia que contrariava as práticas vigentes.

Porque no lugar, lá em Pariquera, daquela vez, tinha muito contra a religião, sabe? Não gostavam da religião, xingavam, rogavam praga, por isso eles vieram pra cá. Chamavam, diziam assim: "Ei, Fulano, venha beber". Sabiam que ninguém bebia, na nossa gente. "Venha beber, venha beber aqui". Com aquele litro de bebida. O pessoal da Lei era judiado, lá .(Alice Tavares)

•  não dispensavam a presença de um líder que, possuindo carisma e reconhecido pelos seus dons divinos, estabelecia as regras dentro das quais seus adeptos passariam a viver.

Ele tinha uma multidão que acompanhava ele. Não comparando, Jesus Cristo não tinha aquela equipe que andava com ele lá? Ele era a mesma coisa. (Ciro Martins)

•  eram conduzidos de maneira a fechar-se sobre si mesmos, constituindo-se sociedades relativamente autônomas, dentro das quais seriam satisfeitas todas as necessidades de seus componentes.

É isso que ele (S. Sátiro ) falava: se eu tinha uma filha, você tinha um filho, não podia tirar uma filha da irmandade e fazer casar com um cara lá... depois ficava difícil de corrigir.

•  a conduta moral e sexual era determinada pelo líder e tinha muitas variações. Porém, as proibições à bebida e ao jogo eram elemento comum e, muitas vezes, as danças também eram consideradas pecaminosas.

No meu entender, um bar de bebida, uma briga, a pessoa tomar um porre, cair, né? Entrar num campo de bola e jogar o dia inteiro, entrar numa questão e fazer uma briga, bater em alguém ou apanhar - eu acho que pra mim isso não serve, sabe? Porque a religião não pede isso aí. (Pradel - SM)

Tempos de prosperidade

Fizemos roça, todo mundo fez roça, plantamos aquelas coisa, aí, começou. De ano já começou produzir, uma rama assim, mandioca, arroz, plantamos arroz, eu sei que nós vendia arroz. (Alice Tavares) As mulheres também trabalhavam na roça. Roçar, desmatar, tudo. Não tinha separação . (Anicleto Silva)

Tinha mutirão. Hoje na roça deste. Amanhã naquele. Quando era em 15 dias, tava com a roça tudo pronta. Depois o baile, né? Aí, era comer, beber. A mordomia, a beleza que tinha. E quem não trabalhava, não entrava no baile, só se fosse muito amigo, se não fosse amigo, não entrava. (Anicleto Silva)

Aí, colhia o arroz, batia tudo, vendia e ia, pagava as contas em Iguape. Comprava as coisas de bastante, comprava o ano inteiro assim. Comprando e depois no fim do ano ia pagar, depois que colhia o arroz, que batia, ia pagar. (Alice Tavares)

A pessoa comprava pra passar um bom bocado de tempo, né? Pegava 5, 6 latas de querosene, que era o que mais usava lá, era só o que comprava: querosene, lata de 18 litros; duas caixas de sabão, de pedaço de sabão, caixa de madeira com pedaço de sabão dentro; sal, 100, 120 quilos de sal, essas coisas que não tinha lá. E tecido, roupa. Já comprava já 10, 15 parelho de roupa pro ano inteiro. Roupa pra sair, pra passeio, pra trabalho... Às vezes a gente comprava uma peça daquela de 100 metros e fazia pros 10 filhos. Fazia de cueca até sutiã, tudo feito na mão. (Anicleto Silva)

A casa de farinha chamava casa de tráfico, onde tinha o forno, esse forno de cobre, grande, os cochos. A gente falava: "Olha, Ciro, vamos cobrir a casa de tráfico, lá". (risos) Você tá gravando isso, tá tudo mundo enrolado. É por isso que eu tô explicando, já, porque naquele tempo, sei lá, acho que índio que inventou essas coisas, né? Aí, arrancava um pouco de mandioca, hoje, fazia sua farinha, amanhã era o João, depois de amanhã era eu, e ia a semana inteira. A casa do tráfico. (Anicleto Silva)

O herdeiro do patriarca - Sátiro da Silva Tavares

Daí o velho Sátiro tinha mesa, em vez de ter só o pessoal ali, já começou a vir gente de fora. Foi que nem aconteceu com o pai dele, a mesma coisa. A Praia de Una tudo ia lá, festa lá, consultava com ele, remédio, Barra do Una, Barra do Ribeira, Aguapeú. Se você chegasse em Iguape e falasse: "Sátiro!", todo mundo conhecia ele. (Ciro Martins )

Era pra gravidez, pra parto, era pra picada de cobra. Eu fui picado duas vezes de cobra. E cobra grande. Não aconteceu nada. Sabe com o que ele curava? Uma garrafada de uma garrafa de água com raspagem de "raiz de bons e maus". O que quer dizer isso? Uma raiz que atravessa o caminho. Ali passa o bom e o mau. Colocava uma gema de ovo no ferimento, bem cozida. Aquilo ficava azulado, puxava o veneno. (Irácio Tavares)

Ih, vinha gente de São Paulo, de toda parte vinha aqui. Uma vez veio uma mulher desenganada, tinha um negócio no peito, diz que era não sei o que é, uma coisa feia. Ela veio pra cá e ele disse: "ah, isso aí não é nada, vai sarar". Eu sempre dizia pra ele: "Sátiro, você não diga que você cura, que você faz remédio e a pessoa sara, não diga assim. Diga que você não sabe, que deu o remédio, mas que não garante". Ela foi pra lá e depois mandou uma carta pra ele, mandou agradecer muito, dizer que algum dia ela vinha. Ela nunca veio. (Alice Tavares)

O velho Sátiro era carinhoso, muito carinhoso. Depois ele morreu, mas existia isso aí, o pessoal amava as pessoas, né? Amava, largava tudo e ia atrás. (Ciro Martins)

Tempos de Alegria

Naquela época era música inventada da pessoa, mesmo. Um cara pegava a viola, sentava lá, a pessoa ficava pensando: "que será? que música será que ele vai cantar agora?" porque ele não podia cantar música de outro. Só tinha que ser dele. (Amado Raimundo -SM)

O pessoal de Praia do Una, todos, todos vinham aqui. Quando era no 29 de setembro, você olhava lá de casa era lindo de ver a procissão do povo. Nossa, umas 300 pessoas, tudo aqui pela trilha. Todo, todo, todo, todo o pessoal de lá, ficava toda fechada a estrada. Você passava lá, não tinha uma pessoa. Casa fechada, vizinhança tudo. Não tinha casa que agasalhasse, era demais o povo. Então, esse povaréu que vinha. Aí, um dia vieram, caía-se grande temporal de chuva, sabe? Mas chuva, chuva, sabe que fizeram? Passaram lá pra cachoeira a carregar pedra e areia. Tinha mais de 50 homens carregando areia. O quê, com esse temporal de chuva? Forraram tudo esse terreiro aqui de areia. Mas ficou coisa mais lindo! A chuva fazia pipoca em cima deles. (Paula Tavares Martins)

Juntava, assim, os vizinhos, fazia aquela roda no pé do fogo e papai ficava contando história pra nós. Todas crianças vinham pra escutar história. Esse papai, onde que ele tava, tava a roda de criança, escutando história. Ele contava e a gente aprendia. A gente ficava pensando naquilo, como que se deu. Como foi, uma criança contava pra outra. Era divertimento pra nós. Aquilo era um tipo de brinquedo pra nós, já era... brincar. E sabe que a história é uma coisa bom, mesmo! Não é? A história, pra qualquer um, ela é um tipo de um, sei lá, um disfarce, sabe, né? Você está assim, você está sentado, escutando uma história, você está disfarçado, sabe, sei lá, você está pensando nada, está escutando aquela história. (Paula Tavares Martins - SM)

Tempos de saudade e solidão

Depois tornou a ficar custoso outra vez, já saíram. Não tinha o que trabalhar e o arroz também falhou, não deu pra vender mais. Ninguém veio comprar arroz aqui porque a dificuldade aqui, né? (Alice Tavares) A lavoura daqui do Rio Comprido começou a produzir e não tinha ninguém pra comprar. (Anicleto Silva ) Os barcos foram acabando, ali na boca da barra, de Barra de Una começou a afundar, bater, às vez que a maré tava baixa batia e fazia água, afundava os barco, faliu, foi falindo as empresas lá. (Lélia Schmidt de Almeida)

O Velho Sátiro veio um dia e falou que daquele dia em diante ele queria que todo mundo trouxesse uma varinha pra ele. Ninguém sabia pra que é que ele queria a varinha. O pessoal ficou: o que será? o que não será? Mas todo mundo levou. Ficou uma trouxa de vara dessa grossura, assim. Aí o Velho, no dia, mandou um tirar três vara e quebrar. Quebrou. Tirou um montinho maior, mandou quebrar e quebraram. Ele falou pra quebrar o pacote inteiro, pr'ocê ver. Não puderam quebrar. Foi a representação que ele fez do povo unido. Se a gente tá unido em 10, 15, 20 pessoas, as outras pessoas, que não eram dos nossos, eles não tinham domínio de nós. Agora, se você estiver sozinho, no meio de 15, 20, é obrigado a se agüentar, porque não suporta eles sozinho. Foi a representação que ele fez no meio de nós. E é o que acontece. (Carlos Raimundo)

Um fator merece atenção na análise do processo de ocupação de diversos espaços por parte dos Tavaranos e a conseqüente alteração dos antigos costumes: os "caipiras", ao migrarem para centros urbanos, contavam com um 'apetrechamento' conhecido em seu novo ambiente: a religião católica - presente em qualquer localidade - proporcionava a continuidade das práticas religiosas e festivas. Os egressos do Guilherme, entretanto, não tiveram a religião como facilitadora de seu processo de adaptação ao "ethos" urbano. Suas práticas religiosas foram por eles tão bem adaptadas ao modo de vida da Irmandade, que não encontram similar em outros locais. Faltou, portanto, aos que deixaram o espaço do Guilherme, o apoio de suas práticas religiosas como mantenedoras do equilíbrio espiritual e dos rituais de convívio comunitário.

Os egressos têm, entretanto, em comum o mesmo discurso 'saudosista':

A gente podia matar uma caça com liberdade, não tinha perigo. Podia cortar o palmito pra gente sobreviver. Eu trabalhava em bananal, mas os outros, na Cachoeira do Guilherme, por aí, trabalhava mais no palmito. Era liberto, não tinha nada, mesmo. Tudo livre, mas depois que começou a Sema, foi o que fez a gente sair de lá. Aí, já acabou todo o serviço, a gente foi obrigado a vir pra cá. Eu não era aposentado ainda, se eu fosse aposentado eu morava lá até agora. Mas não era aposentado. Agora eu sou, quando completei 70 anos foi que eu aposentei. (Arcelino Lopes)

Às vezes eu tô aqui, porque a minha casa é aqui no mangue, né? Tem muito passarinho, eles começam a cantar, de tardinha, eu falo pra ela: "lembra da roça? numa hora dessa a gente tava saindo da roça, cortar arroz, arrancar uma mandioca". Ixe, a vida do mato é outra coisa. A gente tem saudade de lá, da Cachoeira do Guilherme. Às vezes eu vou na Barra do Una, de lá enxerga a serra do Guilherme, azulzinha. Eu paro o carro lá e fico olhando: ah, Jesus! Que saudade! (Miguel Martins)

[1] Citações em René Ribeiro e Roger Bastide, Negros no Brasil: religião, medicina e magia, São Paulo, ECA/USP, 1971, p. 25.

[2] Autos de Habeas Corpus, Juízo de Direito da Comarca de Iguape, 24 de abril de 1930.

[3] Artigo 156 do Código Penal então vigente: Praticar o espiritismo ou magia ou sortilégios, usar de talismãs e cartomancias para despertar sentimentos de ódio, amor, inculcar curas de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim, para facilitar e subjugar a credibilidade pública.

[4] Peter Burke, Cultura popular na Idade Moderna, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, p.294.

[5] Maria Isaura Pereira de Queiroz, O messianismo no Brasil e no mundo , Edusp, 1965.

 
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