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  Home » Acompanhando a Viola » São João: a Viola ponteia no coração da Juréia
 


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Acredita-se que as festas juninas se originaram de antigas festas pagãs, ligadas aos ritos de plantio e colheita, fertilidade e paixão. Assim como outras festas de origem pagã, as festas juninas também foram, aos poucos, ganhando um sentido religioso, pois a igreja católica se apropriou desses festejos, incorporando neles as celebrações das datas cristãs.

No Brasil, as festas juninas estão presentes desde os meados do séc VXI e, em 1583, o jesuíta Fernão Cardim já relatava:

Três festas celebram estes índios com grande alegria, aplauso e gosto particular. A primeira são as fogueiras de São João, porque suas aldeias ardem em fogo e para saltar a fogueira não lhes estorva a roupa, ainda que alguma vez chamusquem o couro [1].

A tradição das cerimônias com fogo acompanha ainda as festas juninas atuais. Na Cachoeira do Guilherme, os fiéis vão além de saltar a fogueira: guarda-se ainda a tradição de passar caminhando sobre as brasas [**], costume cada vez mais raro no Brasil.

Caminhando sobre as brasas.

A celebração de São João para essa comunidade caiçara e todos que ali acorrem nesses dias não é uma ‘reencenação’ da festa. Ali não há um grupo que ‘faz’ a festa e um público que ‘assiste’ à festa: todos participam da preparação, dos rituais religiosos e da parte profana.

Mulheres e crianças enfeitam o espaço.

A festa, que durou três dias, teve início com a reza e o levantamento do mastro na quarta-feira. Ainda naquela noite o fandango já sinalizava o sucesso do encontro – terminou às 8 da manhã e o número de violeiros superou todas as expectativas.

Da esquerda para direita – Orlando, Claudemir, Cleiton,
Nélio, Nilso, Hélio, Ciro, Pradel e Joaquim.

Este ano, o São João do Guilherme foi marcado pelo reencontro de antigos moradores, companheiros e vizinhos que não se viam há algum tempo. Com a presença dos “mais velhos”, vindos de Iguape, foi possível relembrar e ensinar para os “mais novos” algumas danças que estão sendo esquecidas, como ‘Batido’: Há mais de vinte anos que não se dançava batido aqui na Cachoeira, meus filhos nunca tinham visto – comenta um participante. O Batido foi comandado por ‘seu’ Carlos Raimundo, que aqui vemos à esquerda, acompanhado de Pradel Martins e Amado Raimundo.

Carlos Raimundo, Pradel Martins e Amado Raimundo.

Foi realizada também a celebração do Batismo, por D. Paula Martins, herdeira de seu pai, Sátiro Tavares, para a condução desta cerimônia tavarana [2]. ‘Se a criança não é batizada na religião católica, passa pela cerimônia tavarana do batismo; no caso de já ter sido batizada pelo padre, o batismo tavarano tem o valor de crisma, mantendo aqui a regra católica: se for menino, um padrinho; se menina, madrinha. Sátiro Tavares fez mais de 480 batizados e este ritual continua sendo realizado por D. Paula e D. Benedita, aproximando-se bastante da cerimônia católica em sua forma, mas não em sua intenção – se para o católico batizar-se significa libertar-se do pecado original e tornar-se cristão, para o tavarano, o batismo é simplesmente escrever seu nome no livro da vida que Deus está constantemente atualizando. O compadrio sobrepõe-se aos antigos laços familiares: não se diz "meu irmão Fulano", mas "meu compadre Fulano" [3].

Alan, filho do luthier Cleiton e Lucas, bisneto de ‘seu’ Sátiro foram batizados nessa cerimônia.

Lucas recebe o batismo tavarano.

O Viola Peregrina está bastante feliz por se saber também responsável pelo sucesso da festa, pelo reencontro de tanta gente e pela alegria de reunir a nova geração de caiçaras da Juréia. Como dizia o Velho Sátiro: "Deus quer distração, é Deus que manda, pra gente não ficar imaginando bobeira. É porque a bobeira aniquila a gente. E a distração traz a paz" [4].

Nhá Alice, viúva do Velho Sátiro e Amado Raimundo recordam os ‘velhos tempos’.

[**] Caminhando sobre as brasas:
O ritual de 'banhar-se em fogo' - cobrir o corpo com brasas ou andar sobre elas - está ligado à idéia de rejuvenescimento e purificação. Os primeiros registros que se têm sobre o ritual de andar nas brasas com os pés descalços datam das festividades em homenagem à deusa Diana, praticadas em Éfeso, até o 1º século da era cristã. Durante a idade média, os camponeses acendiam fogueiras para espantar as pestes dos cereais que seriam em breve colhidos. Dançar e saltar sobre as brasas tinha como intenção afastar os espíritos do frio e da fome.


[1] A hora de pular a fogueira. Elizabeth Christina de Andrade Lima.
http://www.nossahistoria.net

[2] Clique aqui para saber mais sobre os Tavaranos.

[3] Teresa Melo. A Floresta, a Mesa e as Leis. Dissertação de Mestrado, 2000.

[4] Sátiro Tavares em depoimento para Maria Luiza Schmidt e Miguel Mahfoud, pesquisadores da Faculdade de Educação da USP.

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