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São Miguel Arcanjo é o padroeiro do Centro Espírita da Cachoeira do Guilherme que, no dia 29 de setembro, transforma-se no palco da maior festa anual realizada dentro da Estação Ecológica Juréia-Itatins. Tradicionalmente acorrem ao local pessoas de toda a região, seja por motivos religiosos ou apenas para reencontrar conhecidos.

A Comunidade do Guilherme, próxima à Cachoeira do mesmo nome, fica à margem de um riacho, afluente do Rio Una, mais conhecido por Rio Comprido. Pode-se chegar ao local por trilhas na mata ou pelo rio, em uma viagem que demora de hora e meia a duas horas de barco a motor. Foi nessa região que, em 1930, conduzidas por seu líder espiritual, Henrique Tavares, aproximadamente 25 famílias ali se estabeleceram, unidas por um laço religioso: a sua Lei. Os ‘Tavaranos’, como são conhecidos, tinham em Sátiro Tavares – herdeiro de Henrique – o seu líder espiritual. A morte do ‘Velho’ - como era carinhosamente chamado -, as mudanças para o entorno da EEJI pelas exigências de subsistência e para o estudo dos filhos e a ‘conversão’ para outras religiões são alguns dos fatores da diminuição da comunidade Tavarana.

No entanto, a festa de São Miguel Arcanjo ainda é um momento de extrema importância para a Irmandade. Já na véspera iniciam-se as rezas, que acontecem pela manhã, tarde e noite. Como se estivessem em um retiro espiritual, as pessoas refletem sobre sua fé, reafirmam suas convicções, estreitam os laços. Os membros dispersos da Irmandade também encontram na “reza grande” a melhor oportunidade da reunião e da retomada da tradição, como o batizado.

Batizado da filha da Maria (Irmã de Nerci) e do Claudeci (filho do Estevão),
feito pela D. Paula. Ciro e Nerci são os padrinhos.

Por outro lado, nesta data, a afluência de moradores do entorno, alheios aos motivos do encontro, é muito grande. Formados principalmente por jovens, estes grupos chegam até o Guilherme a pé pelas trilhas, de carona em barcos emprestados ou alugados. Instalam-se precariamente em barracas, cozinham seu macarrão, nadam na cachoeira e no rio, cantam e dançam.

Alguns fatores podem esclarecer esta visita em massa, conforme afirmaram alguns entrevistados: a exigência de autorização para entrada nessa parte da Juréia é atenuada nessa data (esta atenuação é de fato e não de direito); a parcela mais jovem da redondeza - Guaraú, Barra do Una, Peruíbe e, em grande quantidade, de Iguape, além dos moradores da Estação - continua marcando a data em seu calendário de tão poucas diversões tradicionais; as gerações mais jovens dos ex-moradores do Guilherme aproveitam esta última oportunidade no ano de visitar os familiares: em breve inicia-se a temporada e todos eles arrumam trabalhos temporários.

Este ano a ‘Festa do 29’ teve um significado especial: pela primeira vez os mais novos participaram de uma maneira diferente, como aprendizes e protagonistas.

Alessandro aprende com Cleiton
como se finaliza a
construção da viola.
Pela primeira vez os mais velhos dançam o Passadinho ao som da música feita pelos meninos.

É particularmente significativa essa participação dos meninos no espaço da Cachoeira do Guilherme. Afinal, aquele sempre foi um lugar de resistência:

Em contraposição ao tempo que oferece a imagem da mudança, o espaço oferece a imagem da permanência. Os lugares recebem a marca de um grupo e vice-versa. Todas as ações do grupo podem ser traduzidas em termos espaciais e o lugar ocupado pelo grupo é uma reunião de todos os elementos da vida social. O espaço é também fonte de testemunhos: faz lembrar de pessoas e relações sociais ligadas a ele [1].

Ciro e Cleiton e os novos
músicos caiçaras.
Pradel, respeitado violeiro da Juréia, entrega a Peregrina a Alessandro.

O grupo de meninos toca ‘O que aprendi com meus pais’, música feita durante o Seminário de Lançamento do Viola Peregrina.

Viola Peregrina – Alessandro, 12 anos, filho do Américo e neto do “seu” Pires.
Cavaquinho – Heverton, 15 anos, filho do Ernesto e neto do “seu” Teço.
Pandeiro – Lucas, 15 anos, Filho do Admir (Cachorrinho) e neto do Antonio Neto.
Violão – Wellington, 11 anos, filho do Nélio e neto de Malvino
Timba – Leonardo 12 anos filho de Ciro.

Violeiros da Juréia
  

[1] Miguel Mahfoud, "Folia de Reis: festa matriz ou experiência religiosa em comunidades da EEJI na perspectiva da psicologia social fenomenológica", São Paulo, Tese de doutoramento, Instituto de Psicologia, USP, 1996.



[topo] Deus quer distração, é Deus que manda, pra gente não ficar imaginando bobeira.
É porque a bobeira aniquila a gente. E a distração traz a paz.

(Sátiro Tavares, em depoimento a Miguel Mahfoud e Maria Luiza Schmidt)

O que não presta formou-se do nada. A tentação, né? Formou-se do nada. Mas uma coisa muito simples: ele formou-se da inveja, e uma certa inversão, soberbou-se, ficou soberbo. Porque Deus fez a glória, deixou tudo completo: o anjo, pôs São Miguel pra ministrar as coisas e desceu pra cá. Porque isso aqui foi um verter de água também. Era uma coisa imensa, era uma coisa pronta. Desceu pra cá e fez o Deus-interino: é, tirou um anjo dele e deixou representando. Ele para reparar. Só pra reparar, porque tava tudo bem. Ele veio aqui, fez o firmamento, fez, afastou a água, as terras, o solo... E ele lá, no segundo dia já fez um bocado de anjo. Quando foi outro dia, outro bocado de anjo. Aí no terceiro dia, outra turma. Aí São Miguel chegou pra ele: “Escuta aqui! Você tá fazendo anjo - pra que isso aí? Anjo nós temo aí”. “Não, é que quando Deus chegar aqui, eu não entrego mais o trono pra ele, não entrego pra ele. Ele que fique lá com o que tá fazendo lá embaixo.” Então, quer dizer que criou aquela soberba, né? Ganância e... Aí ele (São Miguel) disse: “Não, você não. Contrariado aqui não pode ficar, porque... Cê vai descer lá pra baixo”. Aí, ele: “Vou tocar você pra lá”. “É, se você puder...” Aí socou o olho dele, pastelou com ele... São Miguel empurrou ele. Ele veio irado de lá, com reiva, já contra Deus, porque ele tava falando que ia ficar com o trono, não dava mais pra Deus... Tava contrário. Aí encontrou com Deus: “Onde que você vai?”. Deus, junto com um terremoto qualquer, falou: “Ah, eu vou lá”. “São Miguel me jogou de lá, então você fique com o de lá que eu fico com esse.” Deus disse: “Êh! Se você puder!”. Estão, temos essa guerrazinha ainda. No dia do juízo Ele vai liquidar [2].

[2] Miguel Mahfoud, op. cit.




[topo] São Miguel Arcanjo, cujo nome significa "o que é um com Deus", é considerado o chefe dos exércitos celestiais e o padroeiro da Igreja Católica Universal. É o anjo do arrependimento e da justiça. Seu nome é citado três vezes na Bíblia Sagrada:

- Primeiro no capítulo 12 do livro de Daniel, onde lemos: "Ao final dos tempos aparecerá Miguel, o grande Príncipe que defende os filhos do povo de Deus. E então os mortos ressuscitarão. Os que fizeram o bem, para a Vida Eterna, e os que fizeram o mal, para o horror eterno".

- No capítulo 12 do Livro do Apocalipse encontramos o seguinte: "Houve uma grande batalha no céu. Miguel e seus anjos lutaram contra Satanás e suas legiões, que foram derrotadas, e não houve lugar para eles no céu. Foi precipitada a antiga serpente, o diabo, o sedutor do mundo. Ai da terra e do mar, porque o demônio desceu a vós com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo".

- Na carta de São Judas, lê-se: "O Arcanjo Miguel, quando enfrentou o diabo, disse: "Que o Senhor o condene". Por isso São Miguel é mostrado atacando o dragão infernal.

A Igreja Católica tem uma grande devoção por São Miguel Arcanjo, especialmente para pedir-lhe que nos livre das ciladas do demônio e dos espíritos maléficos. E quando o invocamos, ele nos defende, com o grande poder que Deus lhe concedeu, e nos protege contra os perigos, as forças do mal e os inimigos.

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