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A reza do 25 de março: uma batalha na guerrinha [1]

Dentre as cerimônias às quais assisti, vou reproduzir aqui aquela que me parece mais significativa como tradução da Lei Tavarana: a reza do 25 de março (Anunciação de Nossa Senhora), na qual o rito ganha força pela repetição de uma fórmula que se acredita eficaz. A dimensão mágica está presente, pois a forma ritual é a fórmula mágica.

A reza do dia da Anunciação está dentro da conduta religiosa, tão comum entre nós, que Maria Isaura Pereira de Queiroz chamaria de "do ut des: dou a fim de receber alguma coisa em troca" [2]. O sacrifício físico e as orações rezadas com fé irão garantir ao penitente a invisibilidade de sua alma no dia do Juízo Final. Desta maneira, Satanás não poderá enxergá-la e levá-la para as suas hostes na batalha final da "guerrinha" que está sendo travada desde que São Miguel o expulsou do Céu e Deus restringiu seu reino ao Inferno. Para que o objetivo seja alcançado, é necessário que a pessoa realize a cerimônia todos os anos, mas estão desculpados os casos de ausência por viagem ou doença. Não se cogita a possibilidade de fazer a reza longe da Irmandade.

No dia 25 de março os Tavaranos abstêm-se de comer carne, assim como na sexta-feira santa, e não é realizado o fandango durante a noite. Às duas horas da tarde, reunidos na sala do Centro, o clima é de concentração. 'Seu' Francisco, morador do Rio Verde (comunidade da Estação), louva a nossa presença: Fizeram bem de vir. Esta reza é mesmo muito boa pra quando chegar o dia do Juízo Final! Joaquim toca o pequeno sino. Está sinalizado o início da cerimônia.

Orlando faz a abertura, da qual transcrevo alguns trechos:

Neste momento eu quero agradecer a Deus, nosso Pai, e Jesus, filho legítimo do Pai e depois o comparecimento e participação dos meus irmão que tão nesse momento com nós. E agradecer a Deus em cada momento que nós temo oportunidade, e agradecer a eles, os líderes, porque, por causa deles que nós estamos aqui hoje, meus irmão. Esta obra é tão bonita por causa que eles trabalharam, fizeram e mostraram, indicaram o caminho, a verdade e a vida. Meus irmão, a bênção de Deus a gente não vê, mas ela chega numa hora que a gente nem pensa. Porque Deus não escreve direito por linhas tortas, Deus escreve direito por linha reta. Deus demora mas não falta? Deus não demora, Deus chega na hora certa. Se alguém abandona ou pensa de abandonar, o problema é dele. Nós não abandonamos filho de Deus nenhum. Que seja proveitoso e que seja marcado no livro da vida por Deus. Nem que seja uma palavra, tá marcado no livro.  

D Paula:

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, vamos começar nosso trabalho, meus irmão. Então, eu quero que me ajudem, porque cada um de nós sabemos o que é a reza. Se tiver alguma falha, vós que me ajudem também porque tudo nós sabemo a reza. Vamo começá em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, com fé em Deus.

Cem Pai Nosso rezar

Pai nosso, que estai no céu, a caridade seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. O pão sagrado de cada dia nos dai hoje, perdoai, Senhor, a nossas ofensas assim como nós perdoamo a que nos ofende, não nos deixei, Senhor, cair em pecado porque vosso é o Reino, a Glória, o Poder para sempre, e que assim seja.

Cem ave Maria rezar

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois entre as mulheres, bendito o fruto de seus braços, Jesus. Santa Maria, mãe real, rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa passada, que assim seja.

Cem Glória ao Pátria rezar

Glória ao Pai, Filho, Espírito Santo, seculae, seculorum, e que assim seja. Amado Jesus, José, Joaquim, Ana e Maria, a vós dou meu coração, o espírito meu, para vós e que assim seja. No campo que Jesus "afaz", parte do meu espírito Satanás não saberá, porque tenho por devoção de tudo 25 de março cem vez dar o Pelo Sinal. Pelo sinal da Santíssima Cruz, livrai-me Deus Nosso Senhor dos nossos inimigo. Em nome do Santo Pai, do Santo Filho, do Santo Espírito Santo e que assim seja.

Cem vez nós ajoelhar. (ajoelham-se )

Cem vez o chão beijar. (beijam o chão)

Cem vez nós levantar. (levantam-se)

Cem Pai Nosso rezar.

Ao levantar-se, 'seu' Pradel marca o primeiro dos cem tracinhos em um pedaço de papel sobre a mesa. Duas horas depois, após um breve agradecimento de Orlando, Joaquim toca o sino. Eles deixam-se ficar por ali mesmo. A conversa gira em torno da eficácia da reza, da felicidade em poder estar ali e do questionamento preocupado sobre o motivo da ausência de outros irmãos. O portãozinho é aberto, os cachorros podem agora entrar e eu posso ir esticar na barraca minhas pernas cansadas por apenas 20 genuflexões e ósculos no chão. Sorrio, na saída, para D. Paula, que não diminuiu em nenhum momento o ritmo de "puxar" as orações e mostra um leve rubor no rosto. Do esforço físico ou da alegria de saber ter dado a sua colaboração para o bom desfecho da "guerrinha"?

Minha pesquisa sobre outras manifestações similares em outros locais do Brasil não foi muito frutífera. O mais perto que pude chegar foi o registro de uma oração bastante parecida com uma das proferidas pela Irmandade Tavarana:

Oração do Zé Apraz

No campo do Zé Apraz,
encontrei Satanás.
Esta alma não é tua, eu disse,
e nem aquela do dia 25 de março.
Cem vezes ajoelhei,
cem vezes me persignei,
cem ave-marias rezei,
cem vezes no chão beijei.

Esta oração, recolhida por Oswaldo Elias Xidieh em Taiúva (SP), usada em rituais de cura, merece do pesquisador o seguinte comentário: "apresentam-se orações estranhas, empregadas excepcionalmente para a consecução de desejos e negócios fora do comum e para as quais não basta apenas a proteção de Deus, mas se torna necessária também a colaboração ou, pelo menos, a indiferença do Diabo". [3]

No contexto por nós presenciado, a oração não apresenta nenhum caráter "estranho", pois ajoelhar-se, beijar o chão e proferir as orações não é simples "retórica", mas a expressão da ação concreta, ali realizada. A função de Satanás não é de intermediador, mas claramente de oponente.

Chamam também a nossa atenção as pequenas modificações introduzidas nas orações mais conhecidas, como a variação do Em Nome do Pai, em que cada nome invocado tem sublinhado o seu caráter de santidade: Em nome do Santo Pai, do Santo Filho, do Santo Espírito Santo. O Glória ao Pai ainda conserva um trecho em latim - seculae seculorum. A Ave-Maria tem as expressões "vosso ventre" e "nossa morte" substituída pelos eufemismos "seus braços" e "nossa passada". É de se notar, igualmente, as inversões dos ditados citados por Orlando em sua abertura.

A celebração que tivemos a oportunidade de presenciar é um bom exemplo da parcimônia com que a Irmandade divide os tempos, o momento certo e a importância de cada ação - é o conceito da reversibilidade, segundo Bakhtin:

As festividades têm sempre uma relação marcada com o tempo. Na sua base, encontra-se constantemente uma concepção determinada e concreta do tempo natural (cósmico), biológico e histórico. [...] A morte e a ressurreição, a alternância e a renovação constituíram sempre os aspectos marcantes da festa. [4]

Alfredo Bosi também nos fala sobre isso:

O correlato temporal da reversibilidade é a concepção cíclica da existência. Todo ano se planta, todo ano se colhe. Vem a chuva, vem a seca. A cultura de massas, quando quer imitar a força das práticas populares, procura, mas nem sempre consegue, apanhar seu caráter de reversibilidade. Promove grandes eventos para os quais vão milhares de pessoas, que deliram, gritam, suam, mas depois vão para casa, acabou-se a festa. Falta, então, aquela perspectiva de a festa voltar, no tempo próprio, que é tão grata à cultura popular tradicional. [5]

A Comunidade do Guilherme celebra essa reversibilidade a partir da própria Lei: não só somos pó e ao pó tornaremos, mas nossos espíritos têm outras chances de serem bons. A grave consciência que todos os sujeitos têm daquela celebração, a relevância de seus papéis e a intenção de repeti-la no próximo 25 de março nos certificam dessa perspectiva popular da festa com seu tempo e propósitos próprios, imune a qualquer caráter de mercantilização.

Dona Paula e todos os presentes tomados pela emoção
rezaram por duas horas e meia, sem pausa [topo]


A mesa está preparada para o início da reza [topo]


[1]
Melo, Teresa. A Floresta, a Mesa e as Leis . Dissertação de mestrado, Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 2000.

[2]
"Maria Isaura Pereira de Queiroz, O campesinato brasileiro , São Paulo, Editora Vozes/Edusp, 1973, p. 86.

[3]
Oswaldo Elias Xidieh, Semana Santa cabocla , São Paulo, IEB, 1972, pp. 85-86.

[4]
Mikhail Bakhtin, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais , São Paulo, Hucitec, 1987, p. 8.

[5]
Alfredo Bosi, op. cit., p. 52.

 
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