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Na transcrição desta fala, é importante esclarecer que, embora o texto tenha passado por uma "peneira grossa" em relação à norma culta do idioma, optamos por não submetê-lo a uma "peneira fina". Esta escolha deve-se à convicção de que, se desconfigurarmos excessivamente a fala, não estaremos na realidade 'ouvindo' sua voz. É, portanto, por uma questão de respeito e legitimidade que tentamos preservar um pouco o modo de falar da pessoa que deu este depoimento.

Ouça o registro sonoro do depoimento do Sr. Ciro Xavier Martins
.wma (272Kb)

Transcrição:

"Gente, boa tarde. Pra quem não me conhece, eu sou Ciro Xavier Martins, morador da Cachoeira do Guilherme. Hoje eu moro aqui em Peruíbe há 10 anos. Povo caiçara é o seguinte: são pessoas que mora em bairros isolado, longe da região urbana e a cultura deles, principalmente na Juréia, em cada bairro existia uma cultura. O nosso bairro da Cachoeira do Guilherme, existe a cultura da dança do Passadinho, da dança do Batido. Inclusive eu tenho um irmão que era violeiro comigo e ele mudou aqui pro Guaraú e hoje ele é crente evangélico e eu convidei ele pra tocar comigo e ele ficou com medo do pastor dele, levar umas bronca do pastor. Então, a gente até nessa parte, tô cantando com outro o que eu gostaria que ele cantasse comigo, né - o Cleiton tá fazendo comigo a parte que era pra ele fazer.

A nossa cultura, nós aprendemos com nossos pais, que é tocar viola, cantar, saber plantá arroz, feijão, mandioca. E saber cuidar da terra e preservar o meio ambiente, que nós moramos. Eu saí de lá com 35 ano, tenho um irmão, o Pradel que tá ali, que é violeiro também, que mora lá e tá com 66 ano, 67 ano. Ele mora dentro da estação ecológica. Em volta da casa dele é um lindo jardim, ele sabe preservar a estação ecológica, como todos os morador que moram por lá ainda.

Então, esse projeto Viola Peregrina vem resgatar a cultura caiçara dos bairros de Cachoeira do Guilherme, Prelado, Praia do Una e Barra do Una e Barra do Ribeira, se Deus quiser nós vamo chegar até lá. Então esse nosso projeto é pra resgatar a cultura caiçara, que tava até então se acabando porque o pessoal mudou. Alguns mudou porque tinha que mudar porque os filho já não se acostumava mais no sítio, outros mudaram porque a Estação Ecológica fez uma restrição lá que não deu mais pra gente continuar vivendo, que foi o meu caso, né, eu cortava palmito, caxeta e aí a gente ficou dentro duma estação ecológica que é totalmente proibido a extração de palmito, de caxeta. Então eu tive que vim prum bairro que tivesse emprego, escola pros meus filho e fui parar aqui no Guaraú, já faz 10 anos que eu moro aqui.

Mas nós tamos com esse projeto pra renascer essa cultura que tá meio se apagando, inclusive meus filhos não sabem tocar viola, nenhum deles, e eu tenho viola, eu sou violero. Eles não sabe toar por que? Porque eles... anoitece a noite eles vão pra frente da televisão, eles vão assistir filme até 1 hora da manhã, sábado e domingo eles pegam o skate e vem andar de skate na pista, né? E eu era diferente: eu, meu pai tinha uma violinha, deixava encostada lá na parede, ia pra roça e eu ia lá, não tinha o que fazer, pegava a viola e ia treinando, treinando e me tornei um violeiro.

E até na terça-feira passada eu fui na Rádio Globo, eu e o Cleiton, nós tocamo lá no Serginho Groisman. Então, tem muita gente que pensa que a cultura de um bairro não vale nada... é muito pelo contrário, uma cultura vale muita coisa, vale até dinheiro. Depende que saiba preservar e leve ela adiante, né? E cultura não pode deixar pra trás, não pode deixar esquecida. Eu quero agora passar a palavra pro Plínio e quero dizer pra vocês muito obrigado. Eu quero agradecer também vocês de terem vindo, porque a maioria do pessoal que ta aqui não receberam convite meu, vieram por ser amigo da gente e por gostar do nosso projeto e os que receberam convite não vieram. Então, a gente fica muito agradecido de ver vocês tudo aqui prestigiando a gente."

Ciro Xavier Martins
Representante da Comunidade da Cacheira do Guilherme


 
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