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Ouça o registro sonoro do depoimento do Prof. Diegues Antonio Carlos Diegues
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Transcrição:

"Boa tarde a todos, eu em primeiro lugar queria afirmar que estou muito orgulhoso de estar aqui entre vocês, em primeiro lugar porque eu sou iguapense e, como tal, sou Caiçara. Em segundo lugar porque eu acho que vocês estão aqui numa manifestação de que a cultura é alguma coisa viva, não é verdade?

A cultura é alguma coisa que se manifesta no dia a dia e eu não teria condições de fazer um discurso melhor do que o seu Peixe e por quê? Porque seu Peixe representa na verdade essa luta dos Caiçaras na Juréia e outros lugares, esta luta é longa, nós tivemos muitas derrotas, algumas poucas vitórias, mas eu tenho a impressão de que a força de todos nós vai fazer com que a luta caiçara na verdade atinja seu objetivo, isto é, reconhecimento dessa cultura como um patrimônio nacional.

Isso é muito raro, que um professor da Universidade de São Paulo venha dizer que os Caiçaras fazem parte da cultura nacional e isso por quê? Porque até hoje as pessoas que moram na cidade sempre nos disseram que a cultura é alguma coisa de rico, não é verdade?

Que a cultura é alguma coisa como ópera, como jornal, como teatro e assim por diante. No entanto a cultura são duas coisas, a cultura é o modo de vida, e aí o 'seu' Peixe falou melhor do que eu, ela tem um território, isso é importante; não existe cultura que exista no ar, como não existe viola que ande voando por aí. A viola sempre tá na mão de alguém que vive num determinado lugar.

O importante é que se diga, que este lugar, já foi dito aqui, tem sido negado ao caiçara. O caiçara mora na Juréia, mas não só mora na Juréia. O caiçara, a gente às vezes não sabe, é morador desde o Estado do Rio de Janeiro, do Litoral até o Paraná, passando por São Paulo. Então nós somos muito mais do que os nossos moradores da Juréia, de Iguape e de Peruíbe, nós somos um grupo muito grande mas muito desarticulado e que somente hoje começa a se organizar e nesse sentido este projeto pode ser muito importante para colaborar para que esta organização se faça.

Eu volto a dizer então que essa luta e 'seu' Peixe dá testemunho disso,a Associação de moradores da Juréia também é o outro testemunho dessa luta, a cultura e a sobrevivência da cultura não se faz só com palavras, se faz com ação e nesse sentido, eu tenho certeza, que esse projeto vai negociar, vai conversar com as Associações e com aqueles que na verdade lutam por duas coisas, preservar o modo de vida, que é importante, (preservar não no sentido de museu), todo modo de vida muda com o tempo, não é verdade? Nós temos hoje uma parte dos nossos caiçaras como pescadores nas cidades e nem por isso eles deixam de ser caiçaras.

Então, essa associação entre a terra e a cultura é muito importante, porque nós corremos o risco de ficar com a viola e perder a terra. Ora, ao perder a terra perde-se a viola, perde-se, não é, o pandeiro, perde-se a casa de fazer farinha, perde-se a rede e assim por diante. Não existe viola nem rabeca que voe, esta viola sempre está na mão de um caiçara e mais, não está na mão de um caiçara isolado, tá na mão de um grupo de pessoas que vivem de uma determinada maneira. É essa determinada maneira que está sendo negada por este modelo de Estação Ecológica que nós temos aí, que expulsa gente, que não deixa ninguém pescar, caçar, fazer a sua roça e nesse sentido acho que as palavras do Procurador do Ministério Público, foram muito importantes: quer dizer, hoje nós vivemos num momento em que estas culturas locais estão aparecendo de novo; vejam os quilombolas, eles conseguiram que sua terra fosse reconhecida pela Constituição.

No fundo é isso que nós queremos, que a terra caiçara, o modo de vida caiçara seja reconhecido pela Constituição como um modo de vida rico, importante e cheio de cultura. Se nós não conseguirmos isso não adianta nem viola, nem rabeca nem coisa nenhuma. Agora, é importante a viola e a rabeca? É, elas são importantes por que? Porque elas mostram a cultura do nosso povo. Hoje nós temos mesmo no Ministério da Cultura esse movimento de fazer ressurgir essas culturas locais.

Então, ao lado desse modo de vida, no modo de fazer canoa, eu me pergunto, existe maior imbecilidade pública, do que proibir o caiçara, por exemplo, de fazer a sua canoa? Sabendo que uma canoa dura 30 anos, não é verdade? E que faz parte dessa tradição caiçara? E no entanto a gente sabe que o Instituto Florestal e outras autoridades proíbem ou quase proíbem o caiçara de fazer a sua canoa, a não ser que a árvore já tenha caído, árvore podre é difícil fazer canoa, não é verdade? Então, isso é fundamental. A associação desse projeto, que é um projeto cultural, com a luta caiçara que já vem aí pelo menos há 20 anos. Eu tenho certeza de que a Mongue, o Plínio, vão lutar para que essa vinculação entre a defesa da terra, a defesa dos interesses caiçaras seja preservada através desse projeto que, aí sim se torna um projeto extremamente importante, que é reviver essa solidariedade que existe, que existia mas que continua existindo em várias das nossas comunidades. A Viola e a Rabeca não existem sem o fandango, não existem sem as festas que, por sua vez, não existem sem a roça nem existem sem a pesca. Não existe fandango sem mutirão, todo mundo sabe disso, como não existe rabeca sem a festa do Divino, sem a festa de Reis.

Então é importante que esse projeto, a Viola Peregrina faça também o seu esforço de reforçar essas nossas festas caiçaras. É importante que elas continuem existindo, é importante que haja rabequeiros, por exemplo; hoje nós sabemos que existem construtores de rabeca e não existe mais muita gente que toque a rabeca e nós sabemos por outro lado que Festa do Divino e Reis não existem sem Rabeca e sem Viola.

Então eu acho importante que esta vinculação e eu estou certo de que o Plínio e seu Projeto vão conseguir esta façanha, que não é fácil, de ligar a cultura caiçara com o modo de vida caiçara e que ajude o reconhecimento não só da Viola e da Rabeca, mas a presença do caiçara no seu território tradicional. Isso que é fundamental.

Eu só venho mostrar aqui uma pequena contribuição da Universidade, isso aqui chama-se " Enciclopédia Caiçara ", isso é feito pela Universidade mais renomada deste País, que é a Universidade de São Paulo, vão ser cinco volumes, esse primeiro volume que é ilustrado, com o modo de vida caiçara, com descrições vai ser seguido em Janeiro pelo Dicionário Caiçarês, isto é, a forma como nós falamos aqui no litoral. Depois vai ter um outro volume só de depoimentos caiçaras, então serão os caiçaras que serão os autores desse livro. Depois vai ter um outro volume também sobre mitos, lendas, tradições, festas e danças, isso para mostrar a importância que nós damos à Cultura Caiçara.

Então se eu teria, e vou ter que terminar, a única coisa que eu posso dizer é que este projeto se integre neste movimento de solidariedade caiçara e que viva a cultura Caiçara!"

O professor Antonio Carlos Diegues é antropólogo e coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações Humanas em Áreas Úmidas Brasileiras - Nupaub/USP

 
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