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 Cala-Boca Já Morreu

A metodologia Cala-boca já morreu!
Grácia Lopes Lima

Qualquer método logo vira um sistema burocrático
mas nenhum método também pode virar um método
Plínio Marcos

Seguramente, não é o método que garante atingirmos nossas metas. Ao contrário: o que dá sentido à escolha da metodologia é o que queremos fazer com ela. Caso não tenhamos, de antemão, essa clareza, corremos o risco de transformar nossas ações em mais uma das tantas práticas burocráticas que já existem e que, antes de contribuírem para as pessoas se reconheçam no que fazem, contribuem para o seu embotamento.

Pensando nestas questões, apresentamos didaticamente as quatro etapas que fazem parte da metodologia de que estamos nos valendo, desde 1995, com diferentes grupos [1], de variadas localidades brasileiras.

A intenção deste texto é partilhar um jeito de trabalhar que vem atendendo às nossas expectativas e nos trazendo muitas alegrias. Muitos passaram a ser mais desinibidos (nada é pior do que ter vergonha ou medo de perguntar!), a conversar com altivez com qualquer tipo de pessoa, independente do cargo que ocupe, a aguçar os ouvidos, a ser mais pacientes e respeitosos, a voltar os olhos para si e para os companheiros, a aprender a conviver e, principalmente, a inserir seu ponto de vista sob os mais diversos assuntos, nos mais diferentes lugares.

O nome da metodologia traduz o que pretende o projeto que a gerou - contribuir para que pessoas, independente de idade, gênero, origem ou condição social exerçam o direito não só de receber informação, mas de produzir comunicação.

As quatro etapas da metodologia

Antes de tudo, convém esclarecer que a quantidade de etapas de trabalho proposta para a realização de qualquer prática educomunicativa não deve ser entendida como seqüencial, ou seja, algo que deve ser cumprido rigorosamente na ordem em que aqui aparece. O número quatro deve ser tomado como cardinal, isto é, apenas como uma marca da quantidade de movimentos realizados pelos grupos durante a tarefa.

Em outras palavras: temos observado que os grupos iniciam seus trabalhos de diferentes maneiras, nem sempre começando pela definição de pauta. Entre crianças, por exemplo, é comum a atividade ser desencadeada a partir de expressões do tipo eu quero ser repórter , ou eu quero fazer um "filme de terror" o que leva o grupo na seqüência a pensar em assuntos ou argumentos que melhor sirvam para realizar as idéias. Há casos em que as pessoas começam conversando sobre algo que viram ou ouviram e esse rememorar leva a pensarem em como tratar da questão de uma outra maneira. Acontece também de às vezes iniciarem avaliando o trabalho anterior do próprio grupo. Isso foi bom, aquilo eu não achei legal são expressões que desencadeiam a nova atividade.

O que constatamos, entretanto, é que, independente de onde partam, todos os grupos vivenciam, necessariamente quatro etapas de desenvolvimento da ação coletiva.

Vejamos, pois, um pouco o que as caracterizam:

•  Levantamento e definição da pauta

Como propomos que não haja chefe e que não se produza por encomenda, esta etapa demanda tempo e muita conversa. É o momento de definir o assunto das produções. Tempo de pensar sobre o que se quer, o que convém, o que se necessita tornar público. Portanto, para que o grupo defina o que será bom para todos, é preciso que, antes , cada um possa ter espaço para apresentar individualmente o seu parecer.

Sobre o que você gostaria de falar? O que você gostaria de partilhar com mais pessoas? - são perguntas que podem desencadear um bom debate.

Uma vez expostas as idéias, procede-se à escolha daquelas que se transformarão na peça de comunicação desejada. O sistema de votação tem sido bastante adotado para esse fim. O que sugerimos, nesse caso, é que haja a possibilidade de se abster de votar e que os votos, além de abertos, possam ser justificados, de modo que essa simples ação sirva para que os participantes do grupo se conheçam melhor e, de fato, vivam a democracia.

•  Produção

Nesta etapa, a equipe dá forma às idéias coletivamente eleitas para as produções.

Todos são convidados a pensar no gênero mais conveniente para a proposta, a preparar roteiro, a dividir tarefas de acordo com as necessidades, a escolher o estilo do programa que pretendem realizar e também ensaiar o que for necessário.

Talentos das mais diversas naturezas costumam aparecer nesse momento, estimulando e fortalecendo as relações interpessoais.

•  Apresentação

Fase em que os participantes tornam público o que juntos idealizaram. O grupo pode apresentar-se "ao vivo" ou através de gravação. O que vale mesmo é que este seja um momento de tranqüilidade, que não haja pressão e que realmente sirva para colocar em destaque os vários talentos nem sempre visíveis na comunidade.

•  Avaliação

Momento em que os próprios participantes analisam a produção, pois, melhor que ninguém, eles têm propriedade para falar, uma vez que vivenciaram todo processo de trabalho!

Sugerimos que iniciem avaliando o que saiu a contento, seguida de observações sobre o que mudariam, numa próxima vez, visando a corrigir o que consideraram ruim na produção.

Na seqüência, convém ao grupo ouvir as observações de outras pessoas presentes, incluindo-se aí os apontamentos do mediador da equipe.

Aspectos fundamentais

- A Metodologia Cala-boca já morreu é voltada para pequenos grupos. Queremos que as pessoas se olhem nos olhos, chamem-se pelo nome, dêem mais atenção uns aos outros e se conheçam melhor. Estes são pressupostos básicos de quem busca uma outra forma de organização social, pautada na justiça e nas relações solidárias.

- O mediador deve entender que seu papel é fundamental no processo. Ele não é um ensinador. É, sim, antes de tudo, uma pessoa que sabe que seu papel é político, exigindo de sua parte muita clareza do que quer para si, do que sonha para os outros. A ele cabe a função de estimular o debate e aprofundamento das opiniões emitidas, bem como a de criar condições para que o grupo aprenda a lidar com maturidade as divergências de idéias e comportamento dos companheiros.

- Esta metodologia valoriza muito mais o processo do que o produto. Respeita diferenças de sotaques e expressões corporais, entendendo que a apropriação dos recursos da comunicação deve ser ferramenta na mão daqueles que se juntam para pensar e juntos planejar a própria vida.


[1] diferentes grupos
Criada no Projeto Cala-boca já morreu - porque nós também temos o que dizer!, essa metodologia foi levada para diferentes projetos, tais como educom.rádio, NCE -ECA/USP , em São Paulo (2001), capital, Projetos Rádio-Escola das cidades paulistas de Vargem Grande Paulista (2000), Piedade (2002) e Sorocaba (2001), onde também implantou-se, a partir do mesmo ano o Projeto Vídeo-Escola, Oficina de rádio Ondas Paranóicas com usuários da saúde mental da cidade de São Paulo (desde 1996), Revista Engrama e Programa de rádio Embalos de domingo à tarde , com alunos da 3ª idade da UNATI / FITO-FEAO Osasco - SP (de 1998 a 2002) e Oficinas de Vídeo durante as Mostras de Cinema Nacional de Paraty- RJ (2003 e 2004) e a Adventure Sports Fair, em São Paulo (2004).

 
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