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Na transcrição desta fala, é importante esclarecer que, embora o texto tenha passado por uma "peneira grossa" em relação à norma culta do idioma, optamos por não submetê-lo a uma "peneira fina". Esta escolha deve-se à convicção de que, se desconfigurarmos excessivamente a fala, não estaremos na realidade 'ouvindo' sua voz. É, portanto, por uma questão de respeito e legitimidade que tentamos preservar um pouco o modo de falar da pessoa que deu este depoimento.

Ouça o registro sonoro do depoimento do Sr. José Peixe Amarante
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(781Kb)

Transcrição:

"A todos que me conhece eu sou Jose peixe Amarante, representante da comunidade do Despraiado. Gostaria de dizer a todos como me tornei um Caiçara. Embora seja uma história muito extensa, se eu ficar aqui contando o decorrer de minha vida, provavemente nós vamo dia e noite e ainda não vamo chegar ao fim.

Mas vô abreviar o que puder e dá um entendimento pra que todo mundo mais ou meno entenda o que é isso. Primeramente sô nascido na Bahia, nasci na Bahia cidade chamado Bomfim. Isso aconteceu em 1927, em 1932 nós tivemo uma revolução e a carência no nosso setor lá da Bahia foi muito precária. Meu pai e minha mãe se inscrevero numa imigração e a ela eu agradeço a liberdade de ter conseguido a vim pra São Paulo.

Então viemo pra São Paulo eu e meu pai, minha mãe, passemo 11 dia e 11 noite no Rio São Francisco num vapor chamado Raul Soari, acho que era o vapor mais lento que podia existi naquele rio. Uma miséria total, fome, mas viemo. Tudo bem.

Cheguemo a São Paulo, fui designado (eu não), meus pais foram designado para a fazenda Meireles. Isso fica em Pirajuí, perto de Marília, Cafelândia. Ali militei mais ou meno uma aproximação de dez ano. Quando a gente saía de lá já pegava numa enxada, nua roçadera e meu pão de cada dia. Meus pai viero a falecer, então aí houve problema, eu vim para Conceição de Itanhaém, aonde eu tinha uma tia que nas talvez pudesse morar com ela.

No decorrer do tempo e servindo ali aqueles matuto que morava ali pelo Rio Preto, Caiçara, então me introduzi com eles. Eles gostavam de caça e eu tinha um pouco de conhecimento porque tinha meus familiar que caçavam muito. Então, passemos a caçar e me introduzi no meio ali de Itanhaém, no meio dos caiçara. Não ficando satisfeito com aquilo ali, porque as vezes eu perdia dia de serviço, passei então, com o conjunto inclusive com o falecido Ade Moreira, passemo a caçar em Miracatu.

Uns quatro ou cinco ano depois, descobrimo então o Despraiado, que é aonde eu estô atualmente. Aí eu venho pra vida, bem dizê, real: começa nossa vida, comecei ali em 1972 plantando uma bananinha, um quebradinho, fui, consegui comprar um sitio, nesse sitio eu vivo até hoje, embora inteiramente oprimido pela nossa parte ambiental que nossa, como que digo... nossos governantes suberam fazer a lei, mas num suberam manejá aqueles que ali militam e hoje nós temo aquela desgraça, bem dizer, formada a fome, miséria e outras coisa mais.

Mais tudo isso aí num é o bastante, pra si tornar um caiçara verdadeiro a gente precisa de tudo, nós precisamo levar conhecimento de todo os nossos governante da seguinte forma.

O matêro ou o caiçara, o matuto, seja lá como queiram designar... o caiçara precisa de 50, 60% de viver de convívio inteiramente do mato, ele não tem ligação quase co´a cidade, ele é o intermediário entre o índio e o branco. Coisa que aqui não suberam destacá isso, então, desde quando um caiçara precise viver duma mata, que ele precisa dum palmito, ele precisa duma caça, ele ta precisando duma pesca... porque ele não tem açougue, ele não tem nada que milite ali perto dele, tudo ele tem que cavá, a não sê a ousadia de criá um porco, uma galinha, outras coisa mais.

Tudo bem, tudo até aí corre bem, mas dento do que tá acontecendo aqui na nossa Estação, dentro do Itatins da Juréia, não tá acontecendo isso. A nossa administração não sube reger a lei pensando nos morador dali, então hoje nós tamo sofrendo severas conseqüência. Digo isso procês porque todo mundo aqui já ta ao par disso. Nós temo lei que diz assim é uma lei inafiançável, se eu disser pra vocês, vocês vão até dizê que é brincadeira de fato, é lei inafiançável, o que é que quer dizer com isso? O homem é preso imediato, tudo bem, agora acontece o seguinte, meu pai, já no tempo d´eu criança, meu pai dizia assim: meu filho nunca há dinheiro que pague a vida dum homem e hoje ta inteiramente o contrário, se eu matá um sabiá pra comer... pra comer porque a gente não mata por brincadeira e por esporte não, a gente mata porque precisa, é necessidade que a gente tem. E quando mata, si eu sô preso inafiançável quer dizê que eu não tenho o valor de uma sabiá ou até mesmo dum tico-tico. Que eu acho que... num sei... como é que a gente pode classificar isso aí, quando devia sê inteiramente ao contrário. Nós somo morador duma estação ecológica, nós era pra ter direito e orgulho e batê no peito: "Eu moro dentro duma estação ecológica", quando nós se nega, nós tem medo, nós teme a verdade, não é isso?

Eu me bato há 20 anos que eu ando me batendo de mundo afora pra vê se nós consegue ali dentro... eu tem uma coisa que me aconteceu esses dia, eu mesmo dentro, foi no fim da semana, sexta fera, lá onde eu moro no Despraiado, caiu um temporal muito grande e o que aconteceu: essa água rolou pedras e pedras pra dentro do rio, o leito onde passa justamente os carro. Agora aconteceu o seguinte: um senhor lá de boa vontade nos quis oferecê uma máquina pra tirar, nós mais do que depressa aceitemo aquilo, embora pagasse uma pequena parcela, mas tinha que pagá, mas nós agradecemo a boa vontade dele e a urgência. O que aconteceu: a máquina entrou lá dentro e tava mexendo no rio, quinze minuto depois, que a gente num sabe como é esse mistério, quinze minuto depois, tava lá a SEMA, a SEMA nos embargou, não deixou retirá as pedra e não deixou nada. Agora eu gostaria de perguntar pois justamente eu num tava no ato, se uma pessoa tiver doente e nós precisá tirar de lá de dentro como é que nós temo que fazê?

Num é a primera vez, não foi duas e nem tres, já tiremo muita gente dali de rede, de rede, isso é no tempo de agora, mais isso foi no tempo dos índio, nós não tamo naquela era. Nós já tamo numa época mais evoluída, nós já merecemo um pouco mais de conforto, principalmente quem soube preservar hoje, aonde tá instalado numa estação ecológica. A estação ecológica porque que foi ali? Porque nós subemo preservar, nós seguremo aquilo, porque si nós tivesse devastado não seria estação ecológica. Não teria de jeito nenhum, não podia sê estação ecológica.

Então o que é que traz o sentimento e o pavor e o ranço dum morador aqui da Juréia, Itatins Juréia... eu cantei uma música agora a pouco, isso aí é realidade, não vai pensar que é fantasia não, não fiz fantasia, isso é realidade eu provo pra quarqué um. Nós passamo necessidade, privação... óia, chego até o ponto de dizer que nós tivemo uma época que eles destampavam nossas panela, nossa geladeira pa sabê o que tinha lá dentro. Nós num temo açougue... nós num temo... um outro meio de sobreviver, nós tem que depender do mato, nós tem que tirá 50, 60% de convívio da coisa e o meio ambiente não deu alternativa pra nós - nenhuma, num deu um amparo, num deu um sustento, num deu manejo nenhum. Só chegou e disse É LEI, então é lei então o que acontece, eu disse... tem até um recorte de jornal aí que eu digo de boca cheia eles querem é judiá da gente, indiretamente... indiretamente devagarzinho eles tão judiando, porque ali dentro pra nós é um campo de concentração, a verdade eu tenho que falá.

Me senti, embora como brasileiro, como pobre, um caiçara, que eu morei no interior dez ano nós num tinha essas preocupação, morei certo, embora infantil, na Bahia, onde eu fui chamado de caboclo, num passemo isso, vim passar dentro do Estado mais rico do Brasil, que chama Estado de São Paulo. Eu tenho vergonha de dizê que moro dentro do Itatins Juréia, embora me mantenho lá pra segurá o meu terreno, porque tem uma coisa: se eu abandonar eles num deixam voltar mais e eu não voltando eu perco o terreno. Não é só eu, é um modo geral e total.

Temos diversos erro nessa decretação dessa lei. Quem decretou essa lei num soube pogramá o que queria fazer com o humano, com o morador. Diz eles que sobrevoaram e não viram rancho nenhum, isso não foi verdade porque quarqué um que sobrevoa a dois três quilometro de altura vê quarqué rancho que nós tem, rancho, nós temos rio, temo estrada lá dentro que dava muito bem pra se observar. Quando houve maldade podemos dizê que sim, a maldade houve, implantaram a lei como quem diz... vamo fazê isso e amanhã nós resolvemos esses caso... e esses caso nós já tamos com vinte e tantos anos... tem muita gente aí provavelmente que me acompanha e sabe disso. Há mais de vinte ano que nós briga por isso, pela liberdade pra dizê que somo brasileiro e somo caboclo também.

Uma outra cosa que eu gostaria de expor ao nosso plenário é o seguinte: moramos ali há muito tempo, é... faço quase uma denúncia. Se eu quiser trocá uma telha na minha casa eu tenho que pedir autorização, se eu quiser remendá um pedacinho de cimentado dentro da minha casa tenho que pedir autorização. Tudo isso não basta e nós tem setor que tá derrubando mata virgem, eles tão vendo e não tão falando nada. Agora, o setor que ta procurando andar direito tá sendo vigiado, tá sendo tomado, tá sendo executado por completo, então nós não podemo fazê nada. Por que isso? Porque somo digno daquilo, no dia que estavam vendo o rio lá, a mata tava caído e eles não viram, viram o rio, mas a mata não viram.

Então, tem uma coisa. Gostariamos de pedir ao plenário e à população de todo estado de São Paulo e até mesmo do Brasil, que não vamos atrás dessas visão e dessas demagogia que aparece aí não, que isso que eles apresentam não é verdade.... Macaco, Tucano em todo lugar tem, mas humano precisa saber o lugar que ele aparece, que é o nosso. E nós gostaria de dizê bem claro, somo brasileiro, somo caiçara, somo matuto, MAS SOMO GENTE, eu sô gente igual a quarqué um de vocês, to aqui participando alegre, todo mundo rindo comigo, me sinto orgulhoso, me sinto enriquecido com isso. Agora vou pro meu reduto, deito, ponho minha cabeça no travesseiro, a cabeça fica doente de tanto pensá o que eu vô fazê, o que eu vô comê... amanhã nem isso eu sei o que vô fazê.

Eu tenho diversa gente que tem visitado o meu rancho é uma pouca vergonha, meu rancho, eu não poder fazê nada, não fazê uma melhora, é muito pior do que na cidade, não posso rebocar, não posso fazê nada. Além da parte financeira já não me ajudar eu ainda tenho esse sacrifício, não só eu como todos morador do reduto e eu até pela parte emocional que está sendo me tomado, que eu me choco muito e sô operado do coração, não gostaria, vou até pedir desculpa procês e vô encurtá um pouco da minha explanação, não me levando a mal pra que um outro dia quem sabe eu tô... Porque quando a gente toca nesse assunto eu tô além de vendo, to sentindo tudo aquilo que passo lá, portanto agradeço e peço desculpa a vocês e muito obrigado."

José peixe Amarante
Representante da Comunidade do Despraiado


 
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