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Falares caiçaras
"O termo caiçara é originário do tupi-guarani, proveniente da junção de duas palavras - caá , mato e içara , armadilha, que indicava todo um sistema de proteção e sobrevivência", lemos na Enciclopédia Caiçara Vol. II - falares caiçaras , organizada por Antonio Carlos Diegues e recém-lançada. São chamados de caiçaras os moradores da faixa litorânea que vai do sul do estado do Rio de Janeiro, passando por São Paulo, até o norte do Paraná.
Este volume da Enciclopédia Caiçara reúne palavras e expressões dos caiçaras da região de Iguape e lembra: 'a peculiaridade do falar caiçara não está só assentada na originalidade dos seus termos, mas, sobretudo, no gestual, na entonação da voz que acompanha o seu falar, na sua postura, nas nuanças do olhar.'
Vamos aqui reproduzir uma fala de Paula Tavares Martins, caiçara da Juréia, relembrando a situação familiar do 'contar histórias' e contando uma:
Nós se ajuntava, assim, os vizinho, pra pousar na casa do outro, então nós se ajuntava, fazia aquela roda no pé do fogo e papai ficava contando história pra nós. Papai e um homem chamado Totó Tereza, pousava em casa. Então nós arrodeava eles, pra eles contarem pra nós escutar. Tudas as crianças vinha, pousavam, pra escutar história. Então, era isso que nós gostava.
Nós ficava pensando naquilo, como se deu, como foi, uma criança contava pra outra, né? Era divertimento pra nós. Aquilo era um tipo de brinquedo, já era brincar. E sabe que uma história é uma coisa bom, mesmo? Não é? A história, pra qualquer um, é um tipo de disfarce, sabe? Você tá assim, sentado, escutando uma história, você tá disfarçado, sabe, não tá pensando em nada, tá escutando aquela história, ne'?
Eu nem sei o que a história é. Não sei se foi coisa que passou-se, mesmo, mas acho que foi. Coisa que passou-se de dantes. É o mesmo da vida da gente, qualquer coisa é uma história. A história é a vida, mesma, acho que é. Foi a real que passou-se dantes. A real. Porque as coisas têm uma história.
Você sabe, tudo que é de passado, fica por história. Que nem nós aqui, moramos toda a família: papai, mamãe, nós, moramos, graças a Deus, tamo tudo morando. Mas um dia acontece qualquer coisa, que a gente sai daqui, já fica uma história, né? Já fica uma história pra trás.
Você não faz uma história do nada. Agora, você escutando uma história, você tem do que fazer história. Então, é por isso que a história é importante: porque é de dantes.
Que nem uma mulher, né, uma mulher que era muito boa, sabe, ela era boa demais - você vê se isso não é verdade, é verdade, porque tem gente boa mesmo, né? Aí, eles eram muito pobre, muito pobre demais. Quando foi um dia, a madrinha dela deu uma vaquinha pra ela criar. Aí ela foi criando essa vaca, foi criando, foi criando... Quando foi um dia, o marido falou:
- Mulher, eu vou pegar essa vaca e vou levar pra vender, vender pra comprar alguma coisa pra nós comer porque nós estamos sem nada.
- Ah, pode levar!
Aí saiu o marido com essa vaquinha. Chegou lá numa altura e encontrou um homem com um porco que vinha vindo.
- Você quer trocar essa vaca com esse porco?, o homem falou.
- Ah, troco, pois, essa vaca por este porco.
Você vê, diferençou... Então, chegou lá numa casa, pediu pouso. Pegou o porquinho dele, amarrou lá, deixou. Quando foi no outro dia de manhã, amanheceu o dia, o homem:
- O senhor não queria trocar este porco com este galo?
Você vê, um galo com um porco, né? Já é muito diferente... você vê o prejuízo que ele tava tomando, este homem, né? Aí ele falou:
- Troco, sim.
Pegou e trocou com o galo, pegou este galo, ponhou debaixo do braço e o outro já ficou com o porco. Um ficou com a vaca, outro já ficou com o porco, você vê, ele já tava perdendo, né, com um galo. Aí, foi pra frente, o homem. Chegou lá numa conta, anoiteceu de novo. E a mulher em casa, esperando o marido, né, pra ver o que ele trazia de dinheiro, qualquer coisa. Aí, chegou na outra conta, posou. Quando foi de manhã, amanheceu o dia, o homem veio de lá com uma pedra, uma pedra de amolar foice e falou assim:
- O senhor quer trocar esse galo por essa pedra?
Vê, uma pedra... veja no que ficou essa vaca, né?, uma pedra... Aí, ele falou assim:
- Troco! Pegou e trocou. E falou: é melhor ainda pra mim, porque um galo, né, é sujo e a pedra não, eu ponho no bolso e vou embora.
Pegou essa pedra, ponhou no bolso e saiu. Aí virou pra trás. Quando chegou na conta da viagem, encontrou com três homens e os homens falaram assim:
- O que é que você anda fazendo?
- Ah, eu saí de casa pra vender uma vaca e troquei a vaca e venho vindo embora.
- Você fez tudo esse negócio e vem sem nada?
- Venho sem nada, só trago uma pedra.
- Ah, não acredito, sua mulher vai te matar quando você chegar lá.
- Ah, não, minha mulher é muito boa, ela não vai falar nada de mim.
- Vai, vai falar as coisas pra você, ela vai brigar com você.
- Não, de jeito nenhum!
- Briga! Olhe, se nós chegar na sua casa e você contar tudo esse caso e sua mulher não brigar com você, nós damos... (sei lá a importância do dinheiro que eles davam, sabe?) E damos um sítio pra você. Agora, se ela brigar, você vai dar o sítio de você, porque é só o que você tem. Vai perder tudo.
- Tá bom! Tá muito bom, então vamos embora.
E os três junto com ele
- Mas você não pode chegar antes de nós.
Porque podia que ele chegasse antes e falasse alguma coisa pra ela. Aí, chegaram, de longe a mulher já viu ele, já veio:
- Ô, meu marido!
Foram pra dentro, aí já cumprimentou:
- Olhe, esses aqui são uns colega que eu trouxe.
Aí ela cumprimentou eles tudo, mandou sentar.
- Café não dá pra fazer porque não temo café, não temo nada, marido. (Porque ela ficou sem nada, mesmo, né?)
- Tá bom, tá bom, não temo café pra dar pras visita, fazer o quê?
- Ai, pois é, marido, agora que você vem chegando, agora...!
E os três home olhando.
- Agora que eu venho voltando, mulher, você sabe que viagem, quando a gente viaja, não é um dia nem dois que a gente tem que viajar. (Ladino, ele!)
- Tá bom, marido e como que foi a viagem? (Alegre, ela, coitada.)
- Ah, a viagem, mulher, naquele dia eu sofri, sabe. Peguei aquela vaca e fui com ela. Cheguei lá numa conta, encontrei um homem que vinha com um porco.
- Aí, que você fez, marido?
- Ah, eu troquei a vaca com o porco.
- Ô, beleza, ela falou. Beleza, marido, agora que você fez bem, pois engorda um pouquinho aí nós temo carne pra comer.
- Mas não foi assim, mulher, ainda não parou.
- Ah, então conta, pode contar - (a mulher, né, muito alegre) - pode contar.
Aí ele falou assim:
- Olhe, eu peguei o porquinho e fui pra frente, né. Cheguei lá numa altura, encontrei um home que vinha com um galo. Aí, ele queria trocar comigo, eu troquei.
- É, pois agora que você fez melhor ainda, agora quando é de manhã cedo o galo canta e nós acordamo. Vê, só!
Aí, um olhava pro outro, os homens, ficava... quer ver que nós perdemos essa questão? Eles pensavam, né?
- Mas não foi assim, mulher, ainda. Eu não trouxe o galo.
- Então conte pra frente!
- Aí, cheguei, fui pousar em casa de um homem, o homem com uma pedra, mulher, uma pedra de amolar foice. Aí, ele já queria trocar esta pedra com o galo. Eu peguei, troquei.
- Ê, beleza, marido! Pois esse que você fez melhor ainda! Que agora nós temos essas serenga, aí pegamo, amolamo essas serenga, se aparecer qualquer coisinha, já temo com o que cortar! Que dê da pedra, marido?
Aí ele pegou do bolso
- Êta, beleza! Já vou procurar uma faca aí pra amolar. (Alegre, sabe?).
Aí, os homens, um olhou pro outro: sim, senhor.
- O senhor pode vir aqui, a senhora venha também.
Tiraram um grandessíssimo monte de dinheiro, você vê, dinheiro que era da vaca que ele não vendeu. Então, aquele monte de dinheiro e a mulher falou:
- Que é, marido?
- Ah, isso aqui é um aposto que nós fizemo na viagem.
Aí pegou esse grandessíssimo monte de dinheiro, ficou rico. Mas por ela ser boa, você vê se não é um caso verdadeiro, mesmo. Aí eles ficaram ricos e não precisaram mais trabalhar porque tiveram de tudo. E se ela fosse ruim, embravecesse com ele? Sabe outra coisa, a bondade é uma beleza, sabe, a bondade salva qualquer um de qualquer coisa.
Paula Tavares Martins
Retirado do material dos professores doutores Maria Luiza Schmidt e Miguel Mahfoud, em pesquisa na Cachoeira do Guilherme, Estação Ecológica Juréia-Itatins - SP
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